As férias de menino e a saudade de adulto – Heron Cid
Crônicas

As férias de menino e a saudade de adulto

17 de maio de 2026 às 12h32 Por Heron Cid

O dia ainda era noite. Dona Marizete acordava a gente balançando a rede. Logo, Hernon e eu estávamos de pé. Em pouco tempo, nós três na parada de ônibus.

A TransBalbino aparecia no horizonte. Depois de passar por Sebastião, motorista e dono ao mesmo tempo, nos acomodávamos para a pequena viagem de alguns quilômetros. Dentro dela, olhos nas janelas para ver a paisagem passar e o nariz acariciado pelo perfume dos sacos de hortaliças de dona Lourdes Araújo.

De Marizópolis ao Gravatá era perto, mas a estrada de barro aumentava a distância. Chegávamos no sítio ainda no escuro até pisar na calçada e bater a porta de Chico de Ana e Zilda, donos da bodega do lugar.

Lá, passávamos bem. Comíamos muito rubacão com queijo coalho e carne ou piaba frita. Um manjar. Nas horas vagas, timbugavámos no Rio Piranhas de águas rasas limpas. Na beira, frondosos pés de manga forneciam sombra e fruta fresca.

A outra metade das feiras era na Cabra Assada, outro sítio do vizinho São João Rio do Peixe. A pousada na casa dos primos virava uma festa de fartura na mesa e brincadeiras no terreiro.

Subia na carroça de Gilberto, pilotada pelo primo Júnior. A sensação de controlar as redes do burro fazia-me sentir um motorista dos carros bonitos da cidade. E haja curva e freio. Coitado do motor do burro, aguentando os solavancos e obedecendo a direção sem CNH.

Da carroça direto para os barreiros cheios em época de junho invernoso. Do lado de fora, tome umbu amarelinha e doce que nem mel. Uma abertura de apetite para o almoço cheirando de longe na panela de ferro com arroz vermelho de leite e uma bacia de galinha de capoeira com cuscuz.

O menino aproveitava tudo como se o tempo não fosse nunca passar. Como se a vida fosse aquelas férias que hoje o adulto – sempre ocupado demais com coisas de gente grande – sonha em voltar a viver. Porque sabe que na volta encontrará o menino por lá.

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