
A quem surpreendeu o áudio de Flávio Bolsonaro (PL) batendo papinho de amigão e solicitando milhões ao chefão do Banco Master para supostamente financiar a produção de um filme sobre o pai? Somente a quem se esforçou muito para ignorar o conhecido perfil e dar de ombros ao eloquente histórico do 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro. Porque em Brasília, até os ácaros dos tapetes do Senado sabem quem é e o que faz da vida e da profissão de político o pré-candidato do PL à Presidência. Basta lembrar que o pai gastou parte do mandato na Justiça para blindar o filho das conhecidas peripécias.
Quanto mais tenta explicar, mais o presidenciável se complica. Nada faz sentido. Nenhuma produção séria de filme capta patrocínio como Flávio, um agente político, servidor público e senador da República, pediu de viva voz. Só muita ingenuidade para crer que essa grana seria para bancar filmagem. Flávio fingiu que era. E, para atender a implícita promessa de proteção, Daniel Vorcaro, também. Tanto que, no olho do furacão, sacou R$60 dos R$134 milhões. Para onde? Ninguém sabe. Como o dinheiro foi gasto? Menos ainda.
Este roteiro deixa explícita suspeita: o filme foi/é mais um produto da holding do clã Bolsonaro destinado à arrecadação para usufruto pessoal. Após sair da Presidência, Bolsonaro pediu pix para pagar multas dos crimes cometidos na pandemia. Foi generosamente atendido em milhões e a conta encheu. Nisso – admita-se – eles são competentes. Agem feito líderes de seita, aproveitam da boa fé de seus devotos e usam a fidelidade do rebanho como ativo na bolsa de valores da política – um negócio de família.
O eleitor bolsonarista foi dormir na ficção e acordou na realidade. Por maior que seja o voluntarismo, fica muito difícil suportar cair essa ficha. Descobrir que o seu candidato, o dito representante da direita, do conservadorismo, da família e da frente anticorrupção, negociava com quem, até ontem, era vendido pela cúpula do PL como bandidão ligado ao PT e a Lula? As narrativas se contradizem e, definitivamente, não se sustentam.
Como assimilar ainda que o performático pregador da CPI do Master, na frente das câmeras, pedia no privado favores pessoais e pouco republicanos exatamente ao dono do banco que a CPI pretende investigar? O que dizer diante do áudio incontestável do seu líder e esperança de derrota de Lula posando de amiguinho e jurando lealdade eterna ao banqueiro, um dia antes deste ser preso na investigação do furto contra o sistema financeiro, envolvendo, inclusive, dinheiro público?
Ninguém pode, porém, se surpreender se o fanatismo patológico e emocional superar os fatos e a razão. Nem se a defesa – mesmo constrangida – persistir abraçada a um mundo paralelo. Afinal, cada um acredita na mentira que quer. E quem vê conspiração em tudo e é capaz de tomar detergente contra os inimigos da esquerda consegue engolir, sem soluçar, um candidato com o filme queimado. Um ator canastrão que morreu pela boca.