
Fim de semana, o destino era certo e até fácil de chegar. Bastava pegar a Estrada Velha, subir na passadeira da cancela e descer até o ‘motor’ da Cagepa. Bem ali, ao lado, estava o paraíso às margens do Açude São Gonçalo.
O “Banco de Areia” era a nossa praia em Marizópolis, em pleno sertão ressequido. Um terreno arenoso na beira d’água da imensidão do manancial cuja outra margem dava para perto de Nazarezinho.
Ao redor da nossa ‘Copacabana’ alguns arbustos serviam de vestiário para a muda de roupa ou para quem queria se aliviar. Aparecia gente de todos os bairros. No domingo, levava-se algum tira-gosto em marmita para emendar o dia todo no sol torrando.
Mas também tinha as histórias ruins. Vez por outra, meninos afoitos e rapazes melados de cachaça inventavam de desafiar a travessia do açude no nado a braço. Nem todos chegavam do outro lado e um ou outro era vencido pelo cansaço e câimbras.
O que deveria ser mais um dia de diversão terminava em desaparecimento, buscas sem fim, tragédia confirmada e velórios de famílias que perdiam filhos, irmãos e netos na flor da idade.
Passado o luto coletivo da cidade inteira, o “Banco de Areia” voltava ao estado normal – opção quase solitária de lazer no pequeno distrito de poucos mil habitantes, se não fossem as tertúlias da Soverlanche.
A primeira vez que apareci por lá fui levado por Naldinho, meu tio. Ele, eu e Lyke, o nosso cachorro rajado. Assim que viu a réstia na lámina d’água, o vira-lata seguiu os instintos e nadou sem pressa. Retornava à margem só para receber os aplausos do dono.
De lá, observava com atenção o remanso das águas e o ir e vir das canoas silenciosas, carregando seus pescadores, remando devagar até a noite vencer o dia e o peixe cair na rede ou ser vencido pela ponta do anzol.
Foi lá, já adolescente, que botei os olhos pela primeira vez nas meninas se banhando. Hipnotizado, ficava demorando horas na água, morrendo de vergonha e com medo de sair levando junto um volume a mais no short de banho improvisado.
As areias da praia daquele tempo ainda acariciam meus pés descalços. Agora sou eu quem está sentado na pedra de lavar roupa a me observar no mergulho das lembranças. Com o rosto molhado de saudade.