
As declarações de Paolo Zampolli, assessor com acesso direto ao entorno de Donald Trump, contra as mulheres brasileiras ultrapassam o limite da grosseria. Ao recorrer a generalizações ofensivas e linguagem depreciativa, não expressou opinião: expôs preconceito, misoginia e uma visão distorcida da realidade.
O episódio é grave por representar um ataque coletivo. Um homem com acesso ao poder dos EUA, não pode transformar sua voz pública em instrumento de agressão a milhões de mulheres de um país inteiro. Não se trata apenas de excesso verbal — trata-se de quebra de decoro e de responsabilidade institucional.
A reação foi imediata e compreensível. No Brasil, especialmente entre as mulheres, houve repúdio veementemente e firme. E não poderia ser diferente: dignidade não é matéria negociável, tampouco admite relativização sob o rótulo de “opinião pessoal ”.
As mulheres brasileiras não precisam de tutela. Respondem, todos os dias, com trabalho, inteligência e protagonismo social. O ataque, portanto, não as diminui — apenas revela a pobreza moral de quem o profere.
Há, contudo, um efeito colateral inevitável. Quando um assessor direto se comporta dessa forma, ele não fala apenas por si — projeta sombra sobre o líder a quem serve. Ainda que não haja endosso explícito, a ausência de reação proporcional transfere, no plano simbólico, parte do desgaste ao próprio Donald Trump. É o custo político da proximidade.
Assim, o comportamento deletério de um subordinado acaba irradiando antipatia para além de sua própria figura, alcançando o centro do poder que representa. Não por imposição externa, mas por associação inevitável. Em política, o entorno nunca é neutro: ele revela, contamina e, muitas vezes, compromete.
No fim, a tentativa de ofensa às brasileiras retorna ao seu ponto de origem — ampliando o dano não apenas ao agressor, mas à imagem de quem, pelo cargo que ocupa, deveria zelar para que o poder jamais seja confundido com licença para desrespeitar.
*José Ricardo Porto é desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba