Operação Cartola, fato e versão – Heron Cid
Bastidores

Operação Cartola, fato e versão

7 de novembro de 2018 às 11h17 Por Heron Cid
Exoneração de Lucas Sá após reportagem é fato, que a versão do governo n!ao muda, mesmo sendo verdadeira

Fato e versão às vezes se confundem. Até parecem, mas são coisas diferentes. A repercussão em torno da exoneração do delegado Lucas Sá, da Delegacia de Defraudações, é um exemplo pedagógico.

O remanejamento seria algo rotineiro e uma praxe, como acentuou ontem o Governo em nota à imprensa, não fosse o episódio ter acontecido três dias depois de reportagem do Esporte Espetacular revelar a citação do governador Ricardo Coutinho numa conversa entre Breno Morais e Zezinho do Botafogo, dirigentes do Clube e que desfrutam de relação pessoal e política, respectivamente, com a autoridade estadual.

A menção existiu. Portanto, é um fato. A exoneração do delegado responsável pela investigação logo após a reportagem é outro.

Antes, cabe aqui um parêntese. A simples citação, fruto de interceptação telefônica, de suposta conversa entre Breno e Ricardo não carrega nem de longe materialidade concreta de que houve e nem muito menos consiste em prova de qualquer crime.

Esse esclarecimento é necessário em tempos em que citados por investigados já são passíveis de sumária condenação prévia e pública, sem direito à defesa e nem muito menos contraditório. Foi mencionado já está escrachado. O citado é que tem que provar sua inocência, numa inversão do processo penal onde o ônus da prova cabe a quem acusa.

A citação do governador na conversa é pueril e frágil, até que se investigue e se prove o contrário, competência do Ministério Público que, pelo visto, não enxergou base e nem indício para tanto.

E qual é a versão? A nota do Governo do Estado traz o outro lado da moeda e afirma que não houve qualquer interferência ou ingerência na exoneração do delegado Lucas Sá, visto que a investigação – no âmbito da Polícia Civil – fora encerrada em junho, meses antes do remanejamento.

A versão traz documento assinado pelo delegado João Ricardo Júnior, sucessor de Lucas Sá na Defraudações. E pode ser um fato oficial. Mas nem a reportagem e nem demais veículos que repercutiram a notícia disseram o contrário.

A matéria da TV Globo foi explícita ao dizer que, segundo fontes da Operação, desde abril o trabalho começou a ser asfixiado quando pessoas ligadas ao círculo do Governo passaram a aparecer na investigação. Essa também é uma versão.

Em resumo, estamos entre fatos e versões.

A exoneração de Lucas Sá logo depois da reportagem pode até não ter nada a ver com a reportagem, mas é um fato imutável. Fato que a versão apresentada pela nota do Governo não muda. Por mais que seja, oficialmente, verdadeira.

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