As promessas pelo milagre nosso de cada ano – Heron Cid
Crônicas

As promessas pelo milagre nosso de cada ano

19 de abril de 2026 às 16h28 Por Heron Cid
Gruta de 'Nossa Senhora de Lourdes', em São Gonçalo-Sousa

Alguém já disse que o ser humano só aprende o que decide aprender. Eu, definitivamente, decidi não aprender nenhuma fórmula de química, física ou matemática. Por conta dessa deficiência calculada e assumida, o azul dos meus dezembros eram atormentado pelo vermelho nas notas.

Quando o aviso das finais chegava, caía a ficha e subia o medo de ser reprovado. Como passar um novo ano estudando tudo de novo. O que dizer a mainha que fazia sacrifícios para pagar mensalidades e livros? Com que cara olharia para meus colegas de turma no Colégio Monteiro Lobato, vendo eles avançando uma série e eu empacado na mesma?

Era um terror. Sem crença nas aulas de reforço e sem a menor esperança de decorar numa semana o que não aprendera durante o ano inteiro entrava em desespero. Nesse estado, só restava apelar para todos os santos que eu não cria. De repente, fazia do fundo do quintal um templo improvisado para rogar pelo milagre de passar de ano.

Aprendera com dona Nuita sobre promessas. Ele sempre fazia alguma. Uma dessas foi pela minha cura após uma singela cirugia de amídala. Naqueles tempos, cirurgia era cirurgia. Coisa de vida e de morte. Salvo da retirada das inocentes glândulas responsáveis por três pneumonias por ano, fui ainda criança com minha avó a São Francisco do Canindé. Todo vestidinho de marrom.

Mas agora, já adolescente, eu só queria saber de algum santo para me livrar da reprovação. De joelho no chão, prometia qualquer coisa que viesse à cabeça. Até ir à estátua de Frei Damião, na zona rural de Sousa. Essa paguei indo de mototáxi – morrendo de medo – do centro da cidade até ficar frente à frente com a imagem do frade barbudo.

Nutra, botei minha amiga Janaína pra jogo na conversa com os santos. Pior de cálculo que eu, passou de ano nas últimas e, sem escolha, teve que me acompanhar na aventura. Depois de quase uma hora de caminhada pela Estrada Velha, de Marizópolis à Gruta de São Gonçalo, subimos às escadarias ajoelhados e quitamos nossa dívida com os céus.

Vencidos os degraus, ao olhar as cabeças dos joelhos esfoladas, botamos para rir lembrando das outras léguas para vencer a pé de volta pra casa. Restava o suspiro de saber que estávamos livres. Passáramos do último ano do segundo grau. Esse era o maior milagre para quem já não tinha cara de fazer promessa e nem santo com paciência para botar alguma fé nelas.

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