Judeu numa redação alucinada (por Magno Martins) – Heron Cid
Bastidores

Judeu numa redação alucinada (por Magno Martins)

30 de maio de 2020 às 10h58 Por Heron Cid

(Recife-PE) – A imprensa brasileira está de luto. Foi chamado à eternidade, ontem, ainda bem jovem, apenas 63 anos, o jornalista Gilberto Dimenstein, com quem dividi a mesma redação, a do Correio Braziliense na agitada década de 80 em que o País começou a fazer a travessia dos anos de chumbo para à abertura política lenta e gradual. Dimenstein era de família com o tronco e a raiz em solo pernambucano. Foi um dos mais talentosos jornalistas que convivi em Brasília, tendo como chefe Renato Riella, autor do texto que transcrevo abaixo.

“Para alguns, é a perda precoce de um jornalista famoso, de São Paulo. Para Magno Martins e para mim, é a perda de um grande profissional, que nasceu junto com a gente. Convivemos com ele, como irmãos, na década de 80, no Correio Braziliense, aqui em Brasília. A princípio, Gilberto frequentava a nossa redação “emprestado”. Tímido, cumpridão, bem vestido. Bonitão!

Trabalhava numa revista do velho judeu Macksoud, riquíssimo, que de vez em quando mandava Gilberto a Brasília para entrevistar alguém. E o jovem jornalista nos pediu humildemente para usar uma máquina de escrever e depois um telex, para passar matérias. O diretor de redação era Ronaldo Junqueira, recentemente falecido. Mas o comando estava, na verdade, nas mãos de Fernando Lemos (já falecido) e comigo.

Adotamos o meio estranho judeu, que parecia competente. Um dia, fizemos a ele uma proposta: “Largue tudo e venha trabalhar no Correio”. Topou! A princípio, alojamos ele no Hotel St. Paul, onde tínhamos permuta, até que pudesse alugar apartamento. Vivia solitário, quase sem conhecer ninguém no DF. Domingo de manhã, algumas vezes, comprava o Estadão e ia para minha casa, lendo calmamente a enorme edição à beira da piscina. Mas fugia antes do almoço, para não dar trabalho. Era muito educado.

Em pouco tempo, se tornou ótimo repórter de política e de Palácio do Planalto. Acabou casando-se em Brasília, onde montou uma ONG voltada para crianças. Um dia, resolveu ir embora, de volta a São Paulo, mas nas vezes em que nos encontramos demonstrou verdadeiro amor. Grande amigo. Lembro dele como o mais autêntico judeu com quem convivi: de usar aquele chapéu chamado de quipá.

Agora foi embora, levado por um câncer de pâncreas, que não escondeu de ninguém. Fica na história do jornalismo como um cara legal – o que é mais importante do que tudo. Junto com Magno Martins e outros colegas, sinto saudades de um ser humano muito discreto, que aceitou conviver na redação mais maluca e mais barulhenta do mundo. Ele apenas ria. Apenas curtia intimamente nossa alegria.

Que o Deus universal proteja Gilberto Dimenstein”.

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