Lula e Temer põem Ciro em Xeque. Por Reinaldo Azevedo – Heron Cid
Bastidores

Lula e Temer põem Ciro em Xeque. Por Reinaldo Azevedo

3 de agosto de 2018 às 10h05 Por Heron Cid
Ciro Gomes, candidato à Presidência do PDT, durante seminário promovido por la ssociaçõa Nacional de Auditores Fiscais (UNAFISCO) - Xinhua/Rahel Patrasso

A política no Brasil tem lá as suas particularidades. As duas figuras mais influentes na eleição presidencial deste ano são Luiz Inácio Lula da Silva, hoje um presidiário, e Michel Temer, que bate recorde de impopularidade desde que pesquisas do gênero são feitas ao menos —avaliação que, já deixei claro muitas vezes, considero injusta, incompatível com o resultado de seu trabalho. Tal reconhecimento deve ficar para a história.

Resultado? Apesar da “certeza somente na inconstância”, o país pode assistir a uma disputa final entre PSDB e PT. Como tem sido rotina desde 1989. E assim tende a ser depois de muitos movimentos de superfície, conversa-fiada sobre nova política e outros fricotes novidadeiros.

O petista, que será declarado inelegível pelo TSE, continua a dar as cartas mesmo na prisão. A condição de recluso facilita seu trabalho. Se inelegível, porque condenado em segunda instância, mas em liberdade, poderia ser confrontado com os fatos e exposto às próprias contradições. Como está, e chamei muitas vezes a atenção para este risco, o processo político fica à mercê de uma entidade, de um ente de razão de onde emanam “diktats”. Em muitos aspectos, seus movimentos definem os dos adversários. E Temer segue na arena, embora alvo de golpes desfechados pelo MPF e pela PF que não reconhecem regras o u leis.

As respectivas atuações de Lula e Temer, antípodas entre si, convergiram para asfixiar uma candidatura em particular. O Planalto atuou, de modo confesso, para afastar de Ciro Gomes o dito “centrão”, onde o petista também tinha — e ainda tem! — um operador: Valdemar Costa Neto, chefão do PR. No campo da esquerda, a grande jogada do ex-presidente foi tornar inviável a aliança entre o PSB e o candidato do PDT.

Em três semanas, o cenário, que se afigurava extremamente favorável a Ciro, mudou radicalmente. De um lado, com a anuência de Temer, o “centrão” antecipou a sua adesão a Geraldo Alckmin. O tucano, visto até então como inviável por parte considerável do mundo político, passou a ser tratado como um dos favoritos. Aposta-se que os fatores estruturais de uma campanha farão a diferença: tempo de propaganda em rádio e TV, capilaridade e recursos.

Do outro lado, o pedetista viu subtraída a possibilidade de uma aliança com o PSB. Sem parcerias e com alguns segundos apenas na propaganda de rádio e TV, Ciro é que se tornou uma espécie de “outsider”. O “statu quo”, ainda que bastante avariado pelas legalidades e ilegalidades da Lava Jato, se mobilizou para tirá-lo do jogo.

O candidato do PDT não é um neófito. Com a ironia costumeira, ele se disse o “cabra marcado para morrer”, aludindo ao filme de Eduardo Coutinho. Não há dúvida, para citar São Lucas, de que tem diante de si “a porta estreita”. Pensem aí, e ele certamente estará fazendo o mesmo lá com seus botões: haveria alguma maneira de suas postulações e de sua agenda não sumirem do debate junto com a eventual inviabilização de sua candidatura? Na política, o campeonato moral vale ainda menos do que no futebol.

Acrescento à margem que inexistem na disputa “outsiders” em sentido tradicional, ainda que a formulação pareça contraditória. O nome que mais guarda semelhanças com uma figura exótica é Jair Bolsonaro (PSL). Mas isso se deve menos ao fato de ser um estranho no ninho, o que não é, do que à sua inteligência peculiar e criativa, que o levou, na entrevista ao “Roda Viva”, a desmoralizar a segunda estrofe de “Os Lusíadas”. Ele não reconhece os reis “que foram dilatando/ A Fé, o Império, e as terras viciosas/ De

África e de Ásia andaram devastando”. Chutou o traseiro de Camões, “um caolho!” É o que pedem aqueles que até o general Hamílton Mourão considera “meio boçais”.

Marina Silva (Rede), a versão de Bolsonaro com clorofila e uma flor na mão, também tenta faturar com a antipolítica. Ele está no 28º ano de seu mandato na Câmara, e ela vai concorrer à Presidência pela terceira vez. “Insiders”.

Folha

Comentários