Às (minhas) mães solo – Heron Cid
Crônicas

Às (minhas) mães solo

10 de maio de 2026 às 18h28 Por Heron Cid

Nunca percebi direito exatamente quando meu pai foi embora para nunca mais voltar. Em parte pela tenra idade – pouco mais de quatro anos – mas muito em função da supridora presença materna. Ali nascia uma mãe com dois filhos pequenos para criar sozinha – sem receber uma lata de leite pelo Correio – num lugarejo do sertão da Paraíba.

Sob o estigma machista imposto a todas as mães solteiras daquela década de 80, a jovem Marizete engoliu o choro e foi à luta. Vendeu produtos da Avon, alfabetizou adultos, organizou festas dançantes, cozinhou para fora. Nunca se maldisse ou se vitimizou. Nem tempo tinha para isso.

Só não foi uma odisseia totalmente solitária e mais penosa porque fora generosamente aninhada pela mulher que lhe botou no mundo. Vinte poucos anos antes.

Sua mãe, dona Nuita, minha avó, viveu o mesmo drama quando teve que fugir de casa e da violência doméstica carregando dois filhos na cacunda. E precisou sair pelas estradas empoeiradas vendendo ovos de galinha para sustentar as crias, fingindo não ver ou sentir os preconceitos pelo caminho.

Ela própria também, anos antes, recebeu solidário ombro da mãe, dona Chiquinha. Minha bisavó ficou solteira ainda na juventude. O marido morreu na roça, provavelmente de infarto. De herança ficaram apenas três filhos e muitas incertezas no horizonte espiado da janela de barro.

Antes, a mão dela foi segurada e apoiada pelos braços de sua mãe, Venância, igualmente viúva e pobre com uma penca de filhos descalços pelas capoeiras sertanejas, no distante e cinzento começo do século XX.

Geração após geração, as histórias delas se repetiram como saga. Quatro mães solos num tempo que ninguém falava nisso como heroísmo e resiliência. Elas apenas combinavam que sobreviveriam. Nem que morressem todo dia um pouco para dar vida aos filhos.

Comentários