Bastidores

Umbuzeiro não honra seus quatro filhos ilustres (Por Magno Martins)

10 de setembro de 2021 às 11h08

(Recife-PE) – Num poema épico sobre o Capibaribe, rio que se confunde com a cara do Recife, João Cabral de Melo Neto eternizou que era um cão sem plumas, nada sabia da chuva azul, da fonte cor de rosa. O que diriam de Umbuzeiro, um pontinho perdido no mapa da Paraíba, na belíssima Chapada da Borborema, se ainda vivo o ex-presidente Epitácio Pessoa, o ex-governador João Pessoa, o jornalista Assis Chateaubriand, o rei da comunicação antes da poderosa Globo, e o grande empresário F. Pessoa de Queiroz?

Eles têm em comum o berro que deram ao mundo na pequena Umbuzeiro, de apenas 10 mil habitantes, distante 147 km de João Pessoa, a capital paraibana. Na história brasileira, a cidade dos umbus, do pastoreio do gado, relevada por uma serra cantada em versos e prosas numa altitude de quase 600 metros acima do nível do mar, foi berço dessas quatro notáveis personalidades, hoje muito pouco lembradas ou destacadas por seus moradores.

Eleito presidente do Brasil em 13 de abril de 1919 quando ainda morava na França, caso inédito na chamada República Velha, Epitácio Pessoa derrotou Rui Barbosa, uma lenda. Sua vitória foi marcada por simbolismos, pois um presidente paraibano representava uma primeira derrota da política do café-com-leite, tendo apenas o Marechal Hermes da Fonseca sido uma solitária exceção uma década antes. Contudo, ainda assim ele representava a escolha das oligarquias paulista e mineira.

Epitácio ocupou todos os cargos que um político sonha em vida. Além de presidente da República, o décimo primeiro da história, foi senador pela Paraíba, ministro do Supremo Tribunal Federal, Procurador Geral da República, ministro da Justiça e da Indústria. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, chefiou a delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes. Apoiada pelos Estados Unidos, sua delegação obteve bons resultados quanto aos problemas que mais de perto interessavam ao Brasil: a venda do café brasileiro armazenado em portos europeus e os 70 navios alemães apreendidos pelo Brasil durante a guerra.

Apesar disso tudo, só existe uma biblioteca com seu nome em Umbuzeiro, cidade que nasceu e perdeu os pais com apenas sete anos, derrotados pela varíola, a Covid de hoje pelo volume de mortes que provocou na época. Lá, nem um busto, nem uma rua, uma praça sequer o poder municipal foi capaz de criar em sua homenagem. Já João Pessoa, seu sobrinho, assassinado na Confeitaria Glória, no Recife, por João Dantas enquanto governador da Paraíba, tem praça, rua, busto e escola com seu nome.

Mereceu, por parte dos conterrâneos de Umbuzeiro, mais honras do que Epitácio. Apesar do crime ter sido por motivos passionais e não políticos, a morte de João Pessoa acabou sendo usada pelos apoiadores de Getúlio Vargas contra seu opositor Júlio Prestes, que havia ganho as eleições em março, deflagrando vários protestos políticos. Segundo Getúlio, as eleições haviam sido ganhas por Prestes de forma fraudulenta. Essa situação política, somada à crise financeira decorrente da depressão econômica mundial iniciada em 1929, terminaram por desencadear a Revolução de 1930.

Tão esquecido quanto Epitácio Pessoa, o jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, personagem do filme Chatô do Brasil, também nascido em Umbuzeiro, não tem sequer uma rua com o seu nome. Chateaubriand foi um magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídia da América Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.

Também foi co-criador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi, e ainda como o responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950, a primeira emissora de TV do País, a TV Tupi. Foi Senador da República entre 1952 e 1957 e embaixador do Brasil na Inglaterra. Figura polêmica e controversa, odiado e temido, Chateaubriand já foi chamado de Cidadão Kane brasileiro, acusado de falta de ética por chantagear empresas que não anunciavam em seus veículos.

Um sua Umbuzeiro, ainda intacta, resta apenas como lembrança do passado a casa em que nasceu. “Não sei explicar tamanho erro”, diz a historiadora Ana Márcia, secretária de Cultura da Prefeitura de Umbuzeiro. Segundo ela, Chatô tinha uma relação sentimental com a cidade. “Ele sempre vinha aqui rever seus parentes e conterrâneos”, lembra, acrescentando que dentre as benfeitorias que trouxe para o município estão a atual maternidade e o aeroporto, hoje transformado num campo de futebol.

MAIS ESQUECIDO AINDA

Se o rei do Brasil não é tão paparicado e homenageado por sua gente, igualmente pode se dizer de outro ilustre filho de Umbuzeiro: o empresário Francisco Pessoa de Queiroz. Conhecido como F. Pessoa de Queiroz, foi também advogado, deputado federal, senador e diplomata em Buenos Aires, Londres e Bucareste quando seu tio Epitácio Pessoa foi presidente da República.

Em 1919, fundou o Jornal do Commercio em Pernambuco e iniciou o conglomerado de comunicação Sistema, composto por órgãos de comunicação da imprensa, rádio e televisão, sediado no Recife. Na Revolução de 1930, exilou-se na França, tendo sofrido prejuízos materiais, quando sua residência foi incendiada e o Jornal do Commercio foi empastelado.

Em 1946 fundou o Diário da Noite e em 1948 abriu a Rádio Jornal do Commercio, na época a emissora de rádio mais potente do Brasil. Em 1960, inaugurou a TV Jornal do Commercio, emitindo o primeiro sinal de televisão de Pernambuco. Mesmo assim, como Chatô, sequer há uma rua em sua homenagem na Umbuzeiro, que se destaca no País como grande exportador de gado gir de alta linhagem numa estação inaugurada ainda pelo filho Epitácio quando presidente da República.

A família Pessoa reinou absoluto por mais de 130 anos em Umbuzeiro, mas perdeu o poder nas eleições passadas. Do tronco familiar na vida pública, hoje, apenas o vereador Guilherme Pessoa, 32 anos, segundo mais votado nas eleições passadas. Da sua família, o pai foi vereador, um primo e um tio prefeitos, além dos avós terem sido eleitos para a Assembleia Legislativa da Paraíba. “Nesse tempo todo, a família só perdeu duas eleições”, destaca Guilherme. Ele dá sequência ao feudo político do Coronel Antônio Pessoa, nomeado prefeito por João Pessoa, e soube usar como ninguém a caneta até morrer, honrando as tradições de valentia de João Pessoa.

A pátria-mãe de Epitácio, João Pessoa, Chatô e F. Pessoa, que começou como ponto de parada e descanso dos tropeiros que seguiam com destino ao Recife para escoar a produção de algodão no porto, tem relevância incontestável não apenas para a Paraíba, mas para a história do Brasil. Jamais, entretanto, seus heróis de sangue puro poderiam ter sido esquecidos. Nem a casa em que João Pessoa nasceu, visitada por este repórter, ontem, tem alguma serventia, quando poderia ser um grande museu retratando a história dos seus filhos ilustres, o que se constituiria até em atrativo para o turismo cultural.

Blog do Magno Martins

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