Crônicas

O futebol e seus derivados (Por Hildeberto Barbosa Filho)

2 de outubro de 2021 às 11h33

O futebol ultrapassa, sim, os limites dramáticos de uma simples partida. E é por isto mesmo que o apaixonado pelo espetáculo do tapete verde não só se interessa pelas jogadas sensacionais, pelos lances surpreendentes, pela magia inesperada do gol que faz a bola balançar na rede, arrancando o grito de alegria do coração das torcidas.

Esquema tático, desenvoltura técnica, preparo físico, criatividade, amor à camisa, tudo integra o complexo de sentimentos que mobiliza aquele que cultiva a sagrada paixão pelo futebol. Mas esta paixão, como já disse, não se esgota aí.

Rico e diversificado fenômeno cultural, o futebol acolhe situações e vivências que sinalizam para alguns aspectos curiosos da própria vida humana. Quer seja numa dimensão de viés antropológico, quer seja pela plasticidade estética de certos episódios e de certas configurações, o futebol atrai e fermenta a sensibilidade daqueles que sabem amá-lo, na sua sedutora e plena singularidade.

Ora, os jogos da Eurocopa, da Libertadores, ora do Campeonato Brasileiro, da Copa Brasil ou do Campeonato Paraibano, por exemplo, para além da beleza de tantas jogadas e da alquimia delirante de tantos gols espetaculares, exercem um fascínio particular sobre aqueles que, suspensas as tarefas da rotina cotidiana, acomodam-se no sofá, na poltrona, na espreguiçadeira ou na rede, para beber e degustar cada passe, cada finta, cada pedalada que os múltiplos craques elaboram como se fossem poetas de uma linguagem especial, onde a elasticidade do corpo, a rapidez da inteligência e a ousadia da improvisação compõem, não raro, imagens inesquecíveis. Certas imagens que, qual um poema de Dante ou Baudelaire, o acaso e a necessidade conciliam em sua concreta verbalização.

Para além, portanto, da coisa em si do futebol – esporte, jogo e linguagem, e como linguagem, narrativa, drama e poema -, há os elementos que permeiam, antes, durante e depois, as tensões que rondam o ritual de uma partida, principalmente, se uma decisão.

Penso, aqui, nas entrevistas dos jogadores, nos comentários jornalísticos, nos rituais das fotos, dos cumprimentos, de troca de flâmulas, assim como nos replays dos lances duvidosos e decisivos, flashes e closes da gerais e das arquibancadas, onde o povo, liberto das miudezas e das exigências práticas e utilitaristas do trabalho, como que expressa, através da riqueza dos símbolos populares, seu amor ao time do coração, ao mesmo tempo em que carnavaliza a vida e faz dos estádios mais um espaço de festa.

O futebol é o futebol, e também os seus derivados…

(Em tempo: para Yago Sarinho, Pedro Alves, Fhelipe Caldas e Ricardo Farias, que têm essa paixão!)

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