Crônicas

Um pouquinho de poesia (Por Hildeberto Barbosa Filho)

26 de setembro de 2021 às 11h35

Poesia é quando a pedra é pluma, e a pluma é pêssego, e o pêssego é pássaro, e o pássaro é ponte entre o poleiro e o canto. Poesia é quando estou sozinho e só me resta o candeeiro das palavras. Poesia é palavra.

Segundo um ilustre bardo inglês, é a melhor palavra no melhor lugar possível. Lugar em cuja clareira, aberta e arejada, imperceptível, podem coabitar o absurdo e o milagre. Poesia é milagre que acontece quando nada acontece, ou, dito de outra maneira, o próprio milagre da linguagem enquanto acontecimento.

É também beleza, e, se beleza, não se furta à conexão dos quesitos essenciais à sua fatura insólita e surpreendente, isto é, a integridade, a proporção e a claridade, na lição do mestre São Tomas de Aquino (foto) Poesia é fenômeno anfíbio, ambivalente, inexplicável, pois cultiva, na mesma seara de espantos, o calor de uma alegria para sempre ou a secreta dor das coisas que passaram.

Digamos que a poesia é aquele barco bêbado, à deriva das ondas, sem porto seguro para ancorar; a nau dos insensatos, o êxtase e o naufrágio que nos retiram, num momento louco e raro, do oceano ordinário das vivências naturais e nos põem no limite do imponderável.

Poesia é direito fundamental do ser humano, com todos os seus derivados essenciais, a exemplo do sol e da lua, do ar e da terra, do fogo e da água, e das tantas tonalidades que beiram a aurora e o crepúsculo, o facho de luz de uma estrela solitária, a simetria acesa do silêncio no descampado do deserto e os animais feridos pela dura passagem das horas.

A poesia é matéria ubíqua e contempla os ocasos rudes no campo, a solidão do boi no pasto, mas também o fervor das metrópoles desoladas e cada homem, simultaneamente, como um irmão e um estrangeiro. Nada escapa a seu olhar agudo, a sua escuta mágica, a seu gosto vário, a seu cheiro único. Poesia – suprema inspiração -, diria o poeta. Salvação, maldição, bálsamo, coisa sagrada… Poesia, puro princípio do prazer! Essa poesia que circula pelo sangue gorduroso da vida como um líquido oleoso que a alaga por todos os poros, é experiência de todos nós, bichos tristes e mortais.

É como que um recado de deus! Pois bem: essa poesia, esse pouquinho de poesia – patrimônio universal de cada criatura anônima -, poucas vezes se cristaliza no espaço do poema. Mas, se ela, essa poesia que se oferta, gratuita e generosa, não habitar o reino feérico dos vocábulos, nada será o poema em sua forma bruta e vazia. Portanto, permita-me, leitor, um pouquinho de poesia!

*Hildeberto Barbosa Filho é professor e membro da Academia Paraibana de Letras.

MaisPB

Comentários