Opinião

Cinco anos depois, o silêncio fala e a verdade aparece

15 de setembro de 2021 às 12h20
Roberta Abath, cardiologista e ex-secretária de Saúde da Paraíba

Só estive pessoalmente com Roberta Abath uma única vez. Em Sousa, no Alto Sertão paraibano, e por acaso.

Estava em compromisso profissional na cidade para apresentar da Rádio Jornal AM um programa na Rede Arapuan de Rádios.

À época, era o 60 Minutos, atração que o autor do Blog – ao lado de Anderson Soares e Wallison Bezerra – fundou na prestigiada emissora do empresário João Gregório.

Esbarrei com Roberta num restaurante. Reclusa, de poucas palavras e de quase nenhuma entrevista, exalava pouca afeição para o contato jornalístico.

Dei um jeito e me aproximei. Fui surpreendido. A cardiologista externou serenidade e doçura e se revelou uma apaixonada pelo programa que pessoalmente liderava: a Caravana do Coração, uma ação itinerante de diagnóstico cardiológico pediátrico.

Capturei uma boa conversa com Roberta, cujos olhos claros cintilavam mais quando falava do atendimento precoce a crianças com malformação congênita e da luta pelo fortalecimento do sistema público de saúde.

Na informalidade, me disse uma frase que registrei na memória ao explicar porque evitava exposição na mídia: “Eu trabalho no silêncio pra poder falar mais alto”. Um dia depois escrevi um artigo intitulado “O silêncio que fala”.

Não demorou. Apesar do trabalho e dos resultados, Roberta Abath pediu pra sair. Uma demissão de difícil compreensão. Cinco anos depois, vem a explicação mais plausível do que as convencionais justificativas de questões de ordem pessoal ou profissional.

Investigação do Ministério Público na nova denúncia sobre a gestão fraudulenta e corrupta pelo modus operandi das organizações sociais revela que a dedicada médica não compactuava com as demandas e ordens pouco republicanas que partiam de cima.

Era, como mancheteou Wallison Bezerra em seu Blog no Portal MaisPB, uma pedra no sapato do que o o Gaeco chama de “organização criminosa” infiltrada nos cofres dos recursos que deveriam ser exclusivamente voltados para salvar vidas de paraibanos.

Em silêncio todo esse período, o tempo falou por ela. O coração de Roberta Abaht não batia pelo dinheiro público.

*Abaixo recupero o texto publicado em 18/07/2016 na minha coluna diária no Portal MaisPB. Por dever de justiça e reconhecimento.

O silêncio que fala

Roberta Abath, a secretária de Saúde da Paraíba, evita ao máximo entrevistas. Isso para os jornalistas, feito eu, é péssimo. Ruim porque precisamos de palavras para dar forma ao conteúdo do nosso trabalho de informar ao público e, especialmente, gerar audiência. E saúde pública dá ‘ibope’.

Econômica no verbo, ela liderou por duas semanas e concluiu nesse o projeto da Caravana do Coração, um esforço concentrado de equipes multidisciplinares formada por estudiosos e especialistas do mundo inteiro, para atendimento a gestantes e recém-nascidos. Gente pobre que jamais teria esse direito e ‘privilégio’ se tivesse que arcar com os custos.

A Caravana fez sua última parada em Itabaiana, depois de Monteiro, Princesa, Itaporanga, Cajazeiras, Sousa, Catolé do Rocha, Pombal, Patos, Picuí, Esperança, Guarabira e Mamanguape. Por onde passou deixou respeito e cidadania e levou grandes experiências, aprendizado e subsídio para pesquisas.

Pouca gente sabe, mas geneticistas, infectologistas, cardiologistas, enfermeiros, terapeutas, e tantos outros profissionais de múltiplas nacionalidades, igualmente reverenciados em seus países de origem, participam desse trabalho, possível graças à interlocução da secretária, que deflagrou esse processo quando da sua participação em Londres de um Congresso Internacional apresentou a experiência paraibana. Não por acaso, a BBC se interessou pelo trabalho e acompanhou tudo para produzir um documentário.

Pela dimensão do que representa para a comunidade científica internacional, a presença desses profissionais na Paraíba não se mede. Tem um significado e representação muito maior do que se possa calcular e vai muito além do nosso tamanho e envergadura no mapa brasileiro. A pequena Paraíba mostra-se grande.

Nos bastidores desse trabalho, muita gente testemunha a simplicidade pedagógica da secretária. Técnicas em enfermagem, por exemplo, se surpreendem quando assistem Roberta pegar uma vassoura e despojadamente varrer a dependência do Hospital Regional de Cajazeiras que seria usada para atendimento das crianças e gestantes. São muitas as vezes que ela se emociona e chora durante visitas a unidades e em inaugurações de novos serviços.

Ao invés de ficar no seu gabinete na semana ou em casa no fim de semana, ela faz questão de ir com a equipe no ônibus da Caravana. Lá, exercitou duas vocações: a devoção pelo exercício da Medicina e o seu latente instinto materno. Em Sousa, enquanto a coordenadora da caravana Sandra Matos se desdobrava nas atividades, Roberta cuidava de um adolescente de 13 anos, filho da colega, levando-o para almoço, cercado de atenções, como se seu fosse.

Por acaso, encontrei a secretária num desses momentos num restaurante na Cidade Sorriso. Num canto de parede, quase anônima, ela e um menino ruivo e de olhos já brilhantes pela profissão da mãe, davam uma pausa para uma refeição meio corrida.

Nas poucas palavras que consegui arrancar-lhe, depois de meia hora ‘atrapalhando’ seu almoço, tentando entender mais sobre a Caravana do Coração e seu alcance, Roberta Abath, que ouviu e respondeu a questionamentos entre uma garfada e outra, verbalizou uma frase que vale pelas duzentas pautas que já evitou: “Eu trabalho no silêncio pra poder falar mais alto”. O suficiente para entender sua filosofia de vida também resumida numa curta expressão: “O grau máximo da sabedoria é a simplicidade”.

Nada mais disse. Nada mais perguntei. Nem precisou. Compreendi que o jornalismo pode até ter perdido uma entrevistada com enorme potencial de gerar notícia, mas a Saúde ganhou uma técnica cujo compromisso humano fala mais forte do que qualquer manchete.

MaisPB

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