Crônicas

Amália Rodrigues é meu amor (Por Kubitschek Pinheiro)

4 de setembro de 2021 às 11h06

Fui ao centro da cidade esta semana pensando na via láctea, certo que eu estava em Lisboa. Sempre achei isso de João Pessoa: cheia de encantos e belezas. A João Pessoa de outras eras.

Uma galáxia em espiral urbana. Minhas ruas Santo Elias, Santos Dumont, Duque de Caxias e Gal Osório.

Nada na cidade, nada me lembra ela e, nela, fico estático com vários casarões em ruínas.  No seu movimento carros, flanelinhas, pivetes e idosos numa rotação desigual.

Cálice, cálice, cálice.

De Hosana nas Alturas a Dom José Maria Pires, o preto mineiro mais branco da Paraíba.  Um homem que nunca se calou.

De uma flor de cacto ou o giro de um pião na calçada de meu pai, um copo de leite se derramando sobre si mesmo. Mas aí é o sertão de mim.

Coisas que não voltam mais, e meu coração naquele batidão.

E tem o eixo do eixo que se desloca com o tempo como se desloca o eixo do sexo de outras relações e por isso a estrela portuguesa que amamos tanto continua sendo Amália Rodrigues, que há muitos anos vivia ao lado de um certo fadista, com sua guitarra a soluçar. Uma guitarra a soluçar é demais.

Do nosso céu, só o azul enquanto o dia não morre e há quem nunca mude uma planta de lugar. Meu Deus, já não sei quem sou mais.

Observava na volta para casa as Palmeiras da Praça da Independência e não vi mais os casais independentes na composição, que avistava da janela do busão. As árvores dali tem um verde profundo, outras, ainda um verde novinho, fresco, junto as plantinhas lindas chamadas de onze- horas que não gostam do sol. É a vida desse meu lugar.

Nunca mais vi um Jacarandá, que logo explodiria em azuis, se bem que as flores do Jacarandá mimoso são lilases, o que não quer dizer que as flores azuis não existam. Verônica é uma flor azul, que temos aqui no jardim. Francisco Taboja, o belo candango é foda, um colecionador de imagens “caitanicas”. Alex, que não é casado com Alexa, mas nasceu no Ceará e mora na Florida – é um menino bonito e vadio. Renata é uma loirinha linda e Heloísa é do tempo da delicadeza.

Eu escuto Beto Guedes e choro de cara suja, “meu papagaio o vento carregou, e lá se foi pra nunca mais, linha nova que pai comprou”. Não existe coisa mais bonita. Existe – “Não há, ó gente, oh! Não, luar como esse do sertão”.

Entrei na “Música Urbana” de Robério Rodrigues, vendedor de sons/sonhos e dou de cara com Amália Rodrigues, cantando no Olimpiá de Paris, 1988, o ano que me apaixonei por uma morena dos olhos da cobra verde.

Trouxe Amélia para casa, como se fosse uma sinfonia. É lindo ela cantando “Nem às paredes confesso” de Max e Ferrer Trindade e Artur Ribeiro. Eu também não confesso. Uma existência valiosa, Amália Rodrigues, que em 1976, cantou no Canecão, cujo disco “Amália no Canecão”, foi lançado no mesmo ano.

Chego em casa cansado e logo me renovo. Estou a ouvir Caetano Veloso cantando o fado “Confesso” de Frederico Valério, na turnê europeia, que está na reta final, em Lisboa. Um presente especial de Guilherme Mazzeo, um menino tão jovem, tão belo.

A canção diz que fugir do amor tem seu preço – “E a noite em claro atravesso, longe do meu travesseiro, começo a ver que não esqueço, mas lá perdão não te peço, sem que me peças primeiro”.

Puxa vida! Eu amo Amália Rodrigues…

 Kapetadas

1 – Não adianta falar de setembro amarelo depois que você fez a pessoa se sentir lixo. Cuidado, ofender é cruel.

2 – Impressionante a determinação do dia a dia: se levanta a cada manhã como se ontem não tivesse caído à tardinha.

3 – Som na caixa: “Ai mouraria/Do homem do meu encanto/Que me mentia/Mas que eu adorava tanto”, de Amadeu do Vale e Frederico Valério.

MaisPB

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