Opinião

Existe uma revolução silenciosa na Paraíba. E vem de onde menos se espera…

26 de julho de 2021 às 11h07
Sérgio Fonseca, secretário de Administração Penitenciária da Paraíba, e um gesto simbólico: a mão no ombro

À convite do advogado Abdon Lopes, amigo de infância e conterrâneo de Marizópolis, visitei a Colônia Agrícola Penal de Sousa, meses atrás.

Resisti no começo, por receio. Fui convencido por um argumento fatal do doutor Abdon: você vai conhecer um trabalho de ressocialização e de resgate da dignidade humana.

Fui e vi o incrível resultado do esforço do diretor da unidade prisional, Charles Martins. Apenados estudando e trabalhando com cozinha, marcenaria, artesanato e reciclagem. Me emocionei.

Só poucos não estudavam. E porque não queriam. Do ambiente naturalmente pesado, saí encantado ao testemunhar que pessoas de coração arrependido precisam de pouco, muito pouco, para mudar.

Errei, entretanto, ao pensar que o bom exemplo era isolado, fruto solitário de um diretor com espírito de solidariedade e consciência cidadã firmada no missão básica, e tão incompreendida, do sistema prisional; recuperar pessoas, vidas e famílias.

De fato, o então diretor, agora relocado para cumprir a mesma missão no Presídio Regional de Patos, tem seus méritos. É um servidor dedicado disposto a superar os limites da administração pública. Mas, logo depois, constatei: ele também é produto de uma política de gestão.

Busquei pessoalmente contato com o secretário de Administração Penitenciária da Paraíba, coronel Sérgio Fonseca. Ao referir-me com entusiasmo ao case de Sousa, fui abastecido de outras informações e dados alentadores.

A Paraíba hoje tem 1.984 reeducandos matriculados para educação formal, 120 reeducandos foram aprovados no Enem PPL 2020, 43 selecionados para cursos de nível superior em instituições públicas de ensino. Nesse quesito, a Paraíba ocupa o primeiro lugar no Brasil.

Em parceria com empresas, a Secretaria de Administração Penitenciária inseriu no mercado de trabalho 177 detentos (de janeiro à 27.05.2021). Eles atuam em serviços gerais, auxiliar de logística, encanadores, ajudantes, ferreiros, pedreiros e ajudantes de pedreiro, pintores, etc.

Esses se somam aos 1.775 que trabalham internamente nas unidades penais e no regime meio aberto. São ao total 1.952 reeducandos em atividades produtivas na Paraíba.

O número é expressivo e alentador numa população estimada em 11 mil encarcerados. Gente que um dia, por deliberação própria ou acidente de percurso, cometeu crimes.

Histórias que somente podem ser reescritas pela educação e oportunidade de trabalho. Esse caminho, essa ponte de recomeço, tem sido possível na Paraíba para quem quer, de verdade, uma nova chance.

E isso não é só uma política social. Para quem está lá, na escuridão da falta de esperança, é uma luz,  uma revolução silenciosa e quase invisível que vem de onde menos a nossa implacável sociedade espera.

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