Opinião

As três revoluções (por Antônio Medeiros Filho)

11 de junho de 2021 às 13h25 Por Heron Cid

Três grandes revoluções científicas marcaram os últimos tempos: a da física, a da tecnologia da informação e, mais recentemente, a da genética.

A primeira metade do século passado foi contemplada com as teorias da relatividade e da física quântica do gênio Albert Einstein, que propiciaram o desenvolvimento da energia nuclear, dos transistores, do radar, do laser e das naves espaciais.

Seguiu-se a era da informática tendo como base a constatação de que a informação poderia ser veiculada através do sistema binário on-off, resultando na criação do microchip, do computador e da internet – a revolução digital.

Presenciamos hoje a revolução das ciências da vida, na qual o código genético se sobressai frente ao código computacional.

Os estudos de Jennifer Doudna, (foto) cientista notável agraciada com o Prêmio Nobel de Química em 2020 – cuja biografia foi brilhantemente retratada por Walter Isaacson no seu livro A Decodificadora – desvendaram de forma extraordinária o papel do RNA, até então relegado a plano secundário, uma vez que era considerado apenas o “estafeta” , o mensageiro do todo poderoso DNA. Abriu-se um novo horizonte, ao demonstrar que o RNA seria capaz de se replicar, e que, segundo a cientista, teria começado a se reproduzir antes mesmo do DNA, no processo do início da vida.

Na verdade, durante muito tempo os cientistas concentraram as atenções no DNA, cuja estrutura de dupla hélice fora elucidada por Watson e Crick. O conhecimento atual nos leva a crer que o DNA se acomoda no núcleo da célula, raramente se replica, e seu papel fundamental é de proteger a informação codificada, transcrita pelo RNA que migra para o local de manufatura da célula para a produção da proteína específica. Ao contrário, o RNA efetivamente pode se replicar e atuar como enzima – a ribozima.

Os avanços no conhecimento do ácido ribonucleico e da ferramenta CRISPR tornou possível a edição de genes, cuja aplicação poderá ajudar no tratamento de diversas doenças como o câncer, a anemia falciforme, certas formas de cegueira, Alzheimer, etc. Os custos, por enquanto, são elevadíssimos: cerca de um milhão de dólares para tratamento de portador de anemia falciforme, doença muito séria que afeta cerca de noventa mil americanos; cifra estimada para a cura de uma única enfermidade, o que poderia chegar a comprometer o sistema de saúde do país.

Do ponto de vista ético é muito bem recebida a edição gênica nas células somáticas, para tratamento; quando se aborda, no entanto, seu uso nas células germinativas, a origem dos gametas espermatozoide e óvulo, que definem a herança genética a ser transmitida através das gerações, sérias implicações éticas, filosóficas, antropológicas e religiosas emergem. A “edição de bebês” pelo cientista chinês He Jiankui, em 2018, execrado pela comunidade científica internacional, resultou em acalorados debates suscitados pela preocupação com a possibilidade do uso indiscriminado da tecnologia, inclusive pelos chamados biohackers – a criação do Homo sapiens versão 2.0 –, e também pela inexistência de regulamentação específica. Julgado pelo Tribunal do Povo de Shenzhen , Jiankui foi condenado a três anos de cadeia, além de multa de 430 mil dólares, e proibido de trabalhar com ciência reprodutiva pelo resto da vida.

Além de tudo, criar bebês com caraterísticas definidas: cor dos olhos, talento excepcional para a música, inteligência e dotes físicos superiores, etc., poderia eliminar a diversidade da espécie, aumentaria a desigualdade entre as pessoas, vez que a provavelmente somente os mais ricos teriam acesso a tais tecnologias.

Duas comissões internacionais foram organizadas pelas academias nacionais, nos Estados Unidos, e pela OMS, em meados de 2019, e concluíram que a edição herdável do genoma humano “pode futuramente se tornar uma opção reprodutiva” para casais com doenças genéticas.

A biotecnologia abre caminho, portanto, para o desenvolvimento de terapias nas mais diversas áreas da medicina, no diagnóstico, na produção de vacinas, e etc., como é do conhecimento de todos.

A reação em cadeia de polimerase por transcriptase reversa (RT-PCR) constitui teste de uso corriqueiro para o diagnóstico da COVID-19. Atualmente diversos renomados cientistas se debruçam no desenvolvimento de métodos de bioengenharia, entre eles PAC-MAN ( em analogia ao videogame) que usa a enzima Cas13d , descoberta por Hsu, capaz de destruir o coronavírus. Empregando a mesma enzima para marcar sequências de RNA para clivagem e destruição do vírus, Doudna pontuou: “ Nosso trabalho oferece uma nova estratégia que tem potencial para ser usada como vacina genética e tratamento para Covid-19”.

É mais um extraordinário avanço a ser implementado a serviço da medicina, no arsenal terapêutico para combater esse terrível mal que afeta a população mundial.

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