Crônicas

Para a menininha Maria Helena (uma carta aos órfãos da pandemia)

6 de junho de 2021 às 14h28
O olhar de um pai de olhos marejados na pandemia a contemplar os sete meses da filha: uma cena que o vírus não deixou repetir-se

João Pessoa, Paraíba, 6 de junho de 2021.

Querida Maria Helena, nessa data e hora que escrevo o céu está nublado, as nuvens carregadas e o tempo cinza na frente de minha janela.

Deve parecer muito com o sentimento que aperta o coração de tua mãe, minha amiga Mickaela, ferida pela despedida precoce. Você agora não sabe, mas tua família foi partida no melhor da vida, sete meses após teu nascimento.

Eu a visitei e testemunhei quando tua mãe engravidou pela primeira vez. Ao lado do teu pai, sonharam muito com a chegada do primeiro filho. Ela perdeu a gravidez, mas resignaram-se. Crentes em Deus, confiaram e veio nova gestação. Era você!

Teus pais ficaram radiantes de alegria e tiveram todos os cuidados para preservar tua vida. Prepararam tudo com carinho e festejaram tua vinda tão esperada.

Não houve um casal mais feliz na terra. Até que a covid-19, o vírus de uma pandemia que ajoelhou o mundo, chegou à casa de vocês.

No teu aniversário de sete meses, Pedro, já estava contaminado. Para te poupar, comemorou à distância com olhos marejados contemplando a imagem do teu sorriso diante de um lindo bolo amarelo.

Mas, essa doença levou-o ao Hospital. Muita gente rezou e orou pela recuperação. Ninguém mais do que tua mãe. Ela me mandou tantas mensagens pedindo apoio e implorou toda hora a Deus pela chance de vocês serem felizes. Juntos!

Teu Pedro lutou por semanas num leito de UTI. Tenho certeza, Maria Helena, que todos os dias ele arranjou forças para se manter vivo por você. Pra você. Para poder comemorar outros aniversários bem pertinho de ti.

Apesar da fé e vigília ininterrupta de tua mamãe, teu paizinho partiu. Ele e mais 471 mil brasileiros, até hoje, enquanto escrevo essa carta.

O drama de vocês não uniu o Brasil. Nesse momento, somos um país tragicamente dividido. Nossos líderes estão brigando para saber quem tem razão. Estamos em ano pré-eleitoral, a disputa do poder já começou e a vida do teu papai acabou antes do teu primeiro aninho de vida.

Sei que vais demorar a ler essa mensagem e levará um pouco mais de tempo para compreender seu conteúdo, mas preciso deixar registrado esse momento. Um dia, quando crescer, entenderás tudo. E terás a oportunidade de fazer diferente e melhor do que essa minha geração.

Faça! Por tantos como você, os órfãos da pandemia. Pela luta de tua mãe, Mickaela, que será maior a partir de hoje. Por teu papai Pedro, “que nesta vida só queria ser feliz com sua Maria”. Maria Helena, uma linda menininha.

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