Opinião

Ondas e Contra-ondas (por João Medeiros Filho)

3 de junho de 2021 às 16h53 Por Heron Cid

Transcorrido um ano e meio do diagnóstico do primeiro caso de Covid-19 na cidade de Wuhan (foto), capital da província de Hubei, na China, o início da mais grave crise sanitária enfrentada por nossa geração, muito ainda temos a aprender.

Apreciável experiência já se acumulou no contexto do diagnóstico, da elucidação da fisiopatologia e manejo dos pacientes, embora ainda não exista um fármaco antiviral de consenso no combate ao vírus.

Drogas antivirais como o Remdesivir, anticorpos monoclonais, oxigenação com membrana extracorpórea -recursos muito onerosos adotados como medidas heroicas-, além dos corticosteroides, anticoagulantes, antibióticos, suporte ventilatório, etc., são usados em pacientes mais graves. Tais medidas decerto têm contribuído para a recuperação de milhões de enfermos, em que pese ainda amargarmos a triste marca de mais 460 mil óbitos.

Nesse contexto, nossa grande esperança se deposita na vacina, a única ferramenta capaz de erradicar o mal, abreviando o longo sofrimento para se atingir a imunidade de rebanho decorrente da disseminação em massa, como ocorreu com a Gripe Espanhola, que resultou na morte de 20 a 50 milhões – alguns chegam a admitir 100 milhões – de pessoas, há pouco mais de um século, numa época em que a população mundial beirava os dois bilhões de cidadãos.

A corrida desenfreada da comunidade científica internacional na busca por um imunobiológico eficaz e seguro na prevenção da Covid-19 é altamente meritória. Assim, diversas vacinas já foram aprovadas por organismos reguladores internacionais, inclusive a Anvisa, em nosso País, onde três delas vêm sendo aplicadas na população. São produtos obtidos com tecnologias diversas, seja usando a plataforma já conhecida do micro-organismo inativado ou através da biotecnologia, e que têm demonstrado eficácia satisfatória.

Embora confiantes na sua eficiência, séria preocupação emerge com o aparecimento de cepas variantes, com maior potencial de disseminação e letalidade, a exemplo da indiana que começa a aportar no nosso País, embora já existam evidências científicas de que os imunobiológicos disponíveis seriam capazes de assegurar proteção.

Por outro lado, é possível que doses adicionais sejam necessárias para garantir a prevenção; o tempo nos dirá. Nesse particular, o número de reforços necessários para a efetiva proteção nos indivíduos vacinados é variável, dependendo das características do patógeno e das peculiaridades do agente imunizante utilizado.

Basta tomar como exemplo a vacina contra influenza que precisa ser aplicada anualmente, em virtude da mutação viral; a vacina antipólio oral (VPO) desenvolvida em 1962, e que possibilitou a erradicação do mal no Brasil em 1994, graças à vacinação sistemática da população infantil (< 5 anos) e às campanhas anuais, cumpre o calendário que contempla nada menos do que 5 doses – aos dois, quatro, seis e dezoito meses, e entre 4 a 6 anos. Atualmente os países onde a poliomielite está erradicada usam de preferência a vacina de vírus inativado (PVI) , ou o esquema misto.

Notícias mais pessimistas dão conta de óbitos de pessoas que receberam duas doses do imunizante Butantan/Sinovac, mas é importante ter mente que a resposta imunológica de indivíduos frente às vacinas é variável: a vacina contra hepatite B, licenciada em 1986 e produzida através da técnica moderníssima do DNA recombinante, tem eficácia de 95% em indivíduos jovens e saudáveis, caindo para 20% em imunodeprimidos (HIV positivos); em idosos , ou portadores de enfermidades crônicas, a resposta é imprevisível. Por outro lado, para nosso alívio, o resultado recente da pesquisa no município de Serrana-SP, onde se realizou vacinação em massa da população, revelou drástica redução de casos e mortes pela doença. Os pesquisadores concluíram que o controle da pandemia tornou-se evidente, quando a vacinação contemplou 75% dos participantes do grupo de estudo.

É claro que as medidas de proteção, como o uso de máscaras, cuidados de higiene e distanciamento social devem ser mantidas, mesmo por aqueles devidamente imunizados.

Dessa maneira, não devemos arrefecer o ânimo, tampouco desacreditar nas vacinas, lembrando também a experiência exitosa de vários países como os Estados Unidos, a Inglaterra e Israel, os quais já relaxaram as medidas restritivas, em face do franco declínio da incidência da enfermidade, graças aos elevados índices de cobertura vacinal alcançados na população.

*João Medeiros Filho é médico.

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