Crônicas

A vacina é uma festa (por Kubitschek Pinheiro)

1 de maio de 2021 às 10h37
Foto: Daniel Castellano / SMCS

A vida nunca se acaba. Cada um com sua estrada. Eu gosto de pensar assim: de que a vida nunca se acaba.

Travessias. Fui tomar a segunda dose da vacina no mesmo local, a Escola Leonel Brizola e senti uma sensação de alívio, depois fui ver o mar, exatamente como fiz da primeira vez, mas só ficarei tranquilo, quando todos estiverem vacinados. Travessia.

Penso nos jovens, nos que estão nos pancadões, que nunca se acabam. A vida se acaba.

Viva o SUS?! Esse papo comigo não combina. Se olharmos para os abismos, milhares de pessoas com fome, não há necessidade de vivas, mas agradecer. Pagamos impostos caros, baby.

Conversava com Joria Guerreiro, sobre esse tempo que não quer ir embora. Já passa da hora. “Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Mas não é assim que a Banda toca.

Abri a janela pra ver essa Banda passar e vi o autorretrato do escritor W. J. Solha, que fará 80 anos agora em maio. Um desenho dele, feito de manhã cedinho, “ante o espelho do banheiro”. Solha disse que sua mulher Ione tinha dito que não estava parecido. Ué, tá na cara.

Solha lembrou do que disse Brigitte Bardot sobre o retrato que Picasso fez dela, que não ficara parecido, e Picasso lhe disse: “Mas vai ficar”. Brigitte Bardot não é mais a mesma. Já Solha, novinho em folha.

Nossos retratos, o retrato das pessoas tomando a vacina, a primeira, a segunda e se vier a terceira eu tomo, ficarão guardados para que futuros amantes possam dizer – não somos parecidos.

Tratado da indiferença

Não tem coisa pior do que sentido anti-horário. Outro dia li as declarações obscuras de Martin Niemöller (1892-1984). É dele esse parágrafo -“Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata.

Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse”.

Tais palavras circulam num tratado da indiferença. E são erradamente atribuídas a Bertolt Brecht, que escreveu contra essa indiferença. A indiferença que prefere voltar as costas à ação. A indiferença da cegueira diária. É uma loucura. A indiferença de não ter vacina para todos urgentemente, a indiferença deveria morrer à mingua.

Um dia desses, escutei um cão ganir. Horas depois, veio o silêncio e eu já estava na casa de Zé Américo, onde fiz um selfie com ele, em plena Bagageira. Fui levado a ele, pelo êxodo, o cheiro do engenho e a performance de Soledade. Aliás, fui tangido por uma chuva e não pelo sol.

Jonathan matou a moça

Assustadora essa história da moça de Caruaru, duas numa só: Patrícia Roberta, que foi assinada em João Pessoa. Tanto homem mau por aí. Ser violento Jonathan chamou a moça para morte.

Quando vejo histórias assim, sinto que alguma coisa deve ser feita. O quê? O Código Penal. Decido escrever. Cabe a todos nós entrar no mérito. Talvez o cão que gania, regresse para devorar o Jonathan.

A vacina é uma festa, estampada na cara de ricos, pobres e miseráveis.

Kapetadas
1 – Eu quero pegar o primeiro avião com destino à felicidade.
2 – Quase tudo na vida é metáfora. Se não é metáfora pode ser uma onomatopeia barata ou um pleonasmo cansado.
3 – Som na caixa – “E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir”, Chico Buarque

MaisPB

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