Crônicas

Como viver (por Hildeberto Barbosa Filho)

28 de março de 2021 às 11h16

Como viver? A esta pergunta, Montaigne procura responder com vinte tentativas de resposta, segundo o esquema proposto por Sarah Bakewell, escritora inglesa, em sua biografia do pensador francês. Mais que uma biografia intelectual, o livro de Sarah é visto por alguns como “um guia para a vida”. Mas, existiria mesmo um guia para a vida? A vida, este jogo de regras surpreendentes, esta arena aberta e sem limites, este território plural e enigmático, é passível de receituários e mandamentos? Tudo leva a crer que sim, pelo menos através do olhar articulado e engenhoso de Sarah Bakewell (foto) decodificando os ensaios de Montaigne.

Vejamos as respostas formuladas pela ordem capitular e glosemos uma que outra com as possibilidades oblíquas e sinuosas de um ceticismo quase sanguíneo. “Não se preocupe com a morte”; “Preste atenção”; “Trate de nascer”; “Leia muito, esqueça quase tudo que lê e raciocine com lentidão”; “Sobreviva ao amor e às perdas”; “Recorra a pequenos truques”; “Questione tudo”; “Tenha um compartimento privado nos fundos da loja”; “Seja sociável: viva com os outros”; “Desperte do sono do hábito”; “Viva com temperança”; “Preserve sua humanidade”; “Faça algo que ninguém nunca tenha feito”; “Conheça o mundo”; “Faça um bom trabalho, mas nem tão bom assim”; “Filosofe só por acaso”; “Reflita sobre tudo; não se arrependa de nada”; “Abra mão do controle”; “Seja comum e imperfeito” e “Deixe a vida responder por si mesma”.

Ora, como não se preocupar com a morte? Depois de certa idade, ela se torna mais palpável com suas astúcias de estranha dançarina, convocando amigos, confrades, parentes para as artes negras de seus macabros rituais. De outra parte, é bom pensar na morte. Pensar na morte ajuda o sujeito a compreender e a valorizar um pouco mais a vida. Aliás, não dá para separar a morte da vida. Morte e vida são instâncias dialéticas de um mesmo movimento, uma se alimentando da outra numa espécie de “antropofagia de famintos”, como diria o velho Augusto. Já Cassiano Ricardo, num poema esquecido, diz que “um ano a mais” é, na verdade, “um ano a menos”.

Ler muito é fundamental, mas esquecer o que se leu também conta, porque, de certa maneira, o esquecimento constitui uma espécie de leitura, uma contraleitura ou uma leitura pelo avesso, enviesada, suspensiva, que respeita e ao mesmo tempo despreza a sabedoria dos livros. Afinal, a vida não se resume a livros, mesmo para os bibliófilos, os bibliômanos e os bibliopatas de todos os gostos e estirpes. A vida é maior que os livros!. Por outro lado, raciocinar com lentidão pode ser bom ou não: depende da ocasião e do contexto. Quero crer que há situações em que o melhor seria mesmo não raciocinar, abdicarmos de nossa humanidade e assumirmos o animal que somos, aquele mesmo do poema do velho Augusto: “animal inferior que urra nos bosques”.

Também penso que se deve questionar tudo, inclusive o ceticismo de Montaigne, porém, nada perdemos se despertarmos do hábito, isto é, se fugirmos da rotina e nos entregarmos ao novo e ao desconhecido. Não obstante, lembro ao leitor: nunca esqueça o sabor da rotina e a beleza da mesmice. Quanto a possuir um espaçozinho no fundo da loja, ou seja, um cantinho só seu dentro de casa, nada me parece mais decisivo para a saúde mental do indivíduo que pensa. O direito de estar só é essencial; é uma oportunidade única e mágica de conversar com os outros (céu e inferno) que nos habitam por dentro o silêncio e os paradoxos de nossa alma. É claro que Montaigne também sabia disto!

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