Crônicas

Você já teve uma? (por Givaldo Medeiros)

16 de março de 2021 às 15h22

Não importa o tipo de calçada. A maioria era de cimento grosso. Regular ou irregular. Pedra, mais chique, decorada, não decorada. Grande. Pequena. De qualquer largura. Importa que caiba algumas cadeiras, de fio enrolado, de madeira, dura , grande ou um tamborete.

Cadeiras não importam. Importante é que caiba pessoas. Naquela calçada, com pés pendurados até o chão; o batente, desde que não seja passagem de caminhadas. Importa muito, que caiba uma avó. Filhas e filhos. Netos. Amigos. E a parentada, que não aparenta, mas é.

Importa o disse me disse. O disse não disse. Os desentendimentos e, até bem ver, lágrimas. Risadas brincantes e gargalhadas. Obrigatório que caiba a roda de conversa, que apazigua, ou se faz de forma inversa. Onde se soma e divide. Onde se lancha. E sai um café? Um pequeno, é coisa de fé. Dar uma energia, uma alegria, uma vontade de viver.

Não é nem pela bebida. É mais pelo que enebria. Pelos toques que a cafeína agitando, dá. Nas feridas, na alegria. Calçada é lugar de espanto. Das sororidades e descanso. Dos atrasos e avanços .Da espera dos que estão distantes, tanto assim é, também, das surpresas dos que chegam, sem espera.

Desentendimentos? Mil. E Descontentamentos… Na calçada tudo cabe. Até um cachorro. Nem falo dos pets de hoje em dia, bem tratados e cheirosos que, graças a Deus, são tratados como pequenas crianças. Mas vira-latas mesmo, que, que nem crianças de antigamente, trabalham. Regando. Plantando. Brigando uns com os outros, e até apanhando. Cabe “ricos” e humildes; arrogantes e indefesos.

Se eu fosse prefeito? Criaria leitos para tratar. Traria muitos tipos de vacina. E construiria calçadas. Uma cidade cheia. Com formas alargadas, arredondadas. Em cada uma, um poste de luz. Fraquinha, mas que desse para as pessoas se verem, sem à vista incomodar. Uma cidade de calçadas!

E assim, salvaria os mais velhos do isolamento abissal. Colocando-os ali, ao vento. Levando os vírus para bem longe. Pediria todos de máscaras, e respeitando 1,5 m de distância. Num lugar em destaque, um pouco mais alto, a cadeira da Vó, e um ventilador artificial soprando para o lado do nada. Proibiria prédios, condomínio e elevadores por serem aglomeradores.

Tudo no chão. Como eram as ruas e calçadas onde a família se sentava. E , como numa grande bacia, se jogava as alegrias, os bons e maus sentimentos, e tantos bobos pensamentos. Tudo junto, como se formasse novas matizes; que, ao final, como um líquido volátil de almas nuas, fosse jogado, no vazio do meio da rua. E todos entrassem e dormissem felizes, depois da calçada da Vó.

Você já teve uma?

MaisPB

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