Opinião

Empresas de ônibus fingem protocolo e poder público finge fiscalizar

20 de janeiro de 2021 às 16h56

Já parou para pensar que em todo lugar (bar, restaurante, casa de festa, loja, clínica) há um limite de pessoas no mesmo ambiente, menos nos ônibus do transporte público?

A despeito dos protocolos exigidos para toda a cadeia produtiva e prestadores de serviço, nos ônibus concentra-se o maior metro quadrado de risco de contaminação da covid-19.

Com um agravante: sem que chame atenção, cause repúdio ou, em última instância, provoque um debate razoável e uma força-tarefa para proteger usuário e trabalhadores do transporte.

É como se o perigo de contágio só existisse da porta dos ônibus para rua. Dentro, não importa quantidade e nem como passageiros  se espremem para chegar ao trabalho ou voltar para casa.

Em João Pessoa, as cenas de descaso se multiplicam. O desrespeito ao consumidor e as regras sanitárias se reproduzem à luz do dia. Sem constrangimento.

De um jeito que daqui a pouco o dono do bar ou do restaurante, por exemplo, vai se sentir no mesmo direito de juntar mesas e esticar a capacidade ao máximo. E terá um presumido argumento. “Se pode no ônibus…”

Matéria do Portal MaisPB cutucou o assunto proibido. Do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de João Pessoa recebeu como resposta as obviedades: os ônibus são sanitizados e disponibilizam alcool em gel.

Nada sobre superlotação. Por que? Porque não se consegue afastar com palavras a força das imagens de gente comprimida em centímetros, enlatada feito sardinha, respirando o mesmo e raro ar.

Máscara nenhuma é capaz de inibir o sobrevoo do coronavírus nessas circunstâncias. Dizer o contrário é apenas ginástica empresarial, que em nada diminui o constrangimento às autoridades da pandemia.

O rigor que possibilita degustação e drinks da gente fina em seus ambiente sofisticados, sem ameaças de covid, não garante básica cidadania e segurança sanitária a operários, domésticas e estudantes no seu pandemônio diário de lotações de até 100 pessoas.

A questão é econômica, mas empresas não admitem de forma transparente. Se precisar cumprir o distanciamento social, obrigatório a todos os serviços, este pode ficar inviável. Caberia então uma logística especial, nos horários de pico, até a pandemia passar. Afinal, concessão pública prescinde responsabilidade social. E não só lucro.

Sem respostas ou pressão, a coisa segue. As empresas fingem que cumprem os protocolos e os órgãos fingem que fiscalizam. Só o usuário, e agora Ministério Público, não topa a encenação.

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