Opinião

Genival Lacerda, um dos últimos da primeira geração do forró

7 de janeiro de 2021 às 17h25
O astro do duplo sentido foi grande na música brasileira - em todos os sentidos

Marinês foi a primeira a rejeitar: “Não dá pra mim. Esse negócio de butique pega mal”. Messias Holanda não escondeu o medo doméstico: “Se eu gravar eu apanho da mulher lá em casa”. Zé Calixto deu o fora também.

Ninguém queria “Severina”, do campinense João Gonçalves, em começo de carreira. Até que alguém deu a ideia do iniciante compositor procurar Genival Lacerda. Gonçalves continuou a odisseia e se encontrou com Lacerda, na casa deste, no Zé Pinheiro, em Campina Grande.

Depois de algumas exigências do cantor e concessões do autor, Genival disse sim. Gravaria a música que mais tarde faria sucesso nacional pela Copacabana, com o auxílio luxuoso do Trio Nordestino, à época estrelas da gravadora fundada em 1948 no Rio de Janeiro.

A saga é contada no livro “O fole roncou”, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues. É uma das muitas histórias do forró escritas com letras vivas pela primeira e grande geração nordestina que botou no mundo o forró e fez dele conhecido e adorado pelo Brasil inteiro.

Genival Lacerda – uma das milhares de vítimas da pandemia – pertenceu a essa estirpe dos artistas embalados por Luiz Gonzaga responsáveis por projetar o Nordeste na cena musical e abrir veredas para outras crias e descendências, não necessariamente do mesmo forró.

Espirituoso e de perfil artístico singular, Genival se notabilizou pelo humor e caricatura do matuto atrevido e malicioso. Por isso se identificou com “Severina Xique-Xique”. Somente  seus trejeitos, improvisos, cacoetes e risada particular trariam o adorno que a letra recomendava.

A “Procurando Tu” Genival deu o mesmo tom, mesmo depois de a música do emblemático Antônio Barros, outro paraibano, ter sido registrada primeiro pelo Trio Nordestino.

Como disse certa vez Luiz Queiroga, criador do famoso Coronel Ludugero, o “senador do rojão”, um dos apelidos de seu Vavá, era “um humorista de cara limpa”, tão talentoso quanto Rivelino “cobrando um pênalti”.

Para o ator Lúcio Mauro, com quem Genival chegou a dividir um LP chamado “As trapalhadas de Cazuza e seu Barbalho”, o paraibano era “um comediante, sem professor”, uma rica veia cômica nata exercitada antes de tudo nos estúdios das rádios Borborema e Cariri – a primeira de Campina Grande.

Genival Lacerda, famoso pelo duplo sentido e cuja alegria se calou hoje aos 89 anos, era mesmo de “lascar o cano”. Em todos os sentidos.

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