Crônicas

Eu vi um brasileiro, um pescador e uma história de verdade

20 de dezembro de 2020 às 12h21
Amarelo, verde e um céu azul; um camisa 10 na praia, um brasileiro à beira-mar (Foto: Heron Cid)

A cena interrompeu o mergulho matinal e silencioso em mim mesmo. Sempre que possível, uma contemplação ao divino e à natureza.

Os olhos mal se abriram da meditação e eu vi bem um brasileiro misturado entre os poucos banhistas daquela hora.

Quis só contemplar. Não resisti. Desci às areias e o segui. Ele nem deu conta de minha presença. Pouca coisa à volta importava.

Por hábito, pus a câmera-celular em ação. A imagem era icônica demais para guardar só nas retinas. Eu vi um brasileiro.

Andei calado com aqueles passos lentos, de um canto a outro, no balé do caçador.

Era um ritual. Depois de limpar a rede da última investida e remover sargaços, arrasta-se para fora com ela até repetir tudo de novo. Uma, duas, três vezes… Eu vi um brasileiro.

Dentro d’água, anda em roda devagar, junta uma ponta à outra e fecha-se o círculo.

De volta à margem, alguns poucos peixinhos do tamanho de nada se debatem. Carapibus, sardinhas e outros minúsculos habitantes entram na sacola plástica pendurada ao pescoço do velho pescador.

Vestia camisa verde e amarela da seleção nacional de futebol e o número 10 nas costas. Foi a primeira coisa que vi, ainda de longe. Eu vi um brasileiro. Brasileiro não descansa. Brasileiro não desiste.

Os dois a sós, provoquei súbito diálogo.. Seu Rubens, 80 anos, casado, pai de um casal de filhos.

“Dez anos atrás, eu ainda entrava (no mar). Agora, não aguento mais. Dez anos para quem é novo não faz diferença, mas para quem já é velho…”.  Era sobre si e a velhice que ele falava. Mas, também sobre mim, a juventude e o tempo.

Um pescador bem brasileiro e uma verdade universal.

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