Crônicas

A novidade (ainda) é Amos Oz (por Kubitschek Pinheiro)

8 de novembro de 2020 às 09h16

Coincidência ou não (coincidência não existe), eu estava numa farmácia em Tambaú, quando encontro uma mulher que já tinha visto num sinal fechado (ela estava com seu cão raivoso). O cão latia pra mim. Tal semelhança de outra senhora, que vi no elevador do prédio onde morávamos em Paris, na Place d’Italie, na década de 80. A memória funciona por ondas de sentidos e em algum deles deve ter evocado essa lembrança.

Certamente uma questão simbólica da memória, responsável pelo aspecto funcional de cada um. O que aflorou assim, tal pessoa convocada? Uma senhora parisiense bastante antipática, por que veio hoje me chamar? Será que eu já morri?, pensei. Minha boca inchou de silêncio.

Eu era jovem diante da cena. Naquele dia, a francesa me olhava da cabeça aos pés, cruel e realista, se referindo a mim como argelino, um intruso em seu país: eu tinha acabado de chegar na França. Ela conversava com o cão a meu respeito. Essa semana vi um cachorro minúsculo, chamado Nietzsche. O bigode do animal é igual ao do autor de “Assim falou Zaratustra”, um livro para todos e para ninguém.

Acho que a senhora parisiense orientava seu cachorro (que era maior do que ela), para me atacar. Logo eu, que só mato saudades. O K que não parecia um terrorista, mas na França de hoje, teria me ferrado com a barba por fazer.

Agora, deixa eu dizer uma coisa. Essa questão da memória é uma coisa impressionante. Se eu não ler todos os dias, produzir textos, assistir aulas de Mitologia, assistir filmes, minha memória pifa.

Esqueço chaves, cuecas sem dinheiro, lápis, contas e lugares onde guardei alguns discos. O que fez lembrar aquela mulher no elevador, luz e sombra e nos enquadramentos confusos da memória, vai além da postura do seu cão. Sim, ela apontava para mim e é feio uma pessoa falando com o dedo em riste.  Aliás, preciso parar de misturar os assuntos.

Já estava deitado lendo o primeiro capítulo de “Amor e Trevas”, de Amós Oz (2002) e, logo no inicio, ele conta que em Jerusalém, na década de 40, a família toda se reunia mensalmente para ir até a farmácia e fazer um telefonema para a outra metade da família que estava em Tel Aviv. Isso me chamou a atenção: preparativos, rituais e, no dia combinado, todos se vestiam com capricho, inclusive o cachorro, para ir fazer o telefonema. Era um exercício da memória.

Lembra Amos Oz, (foto) que quando a ligação se completava, a conversa era de sempre: Como estão? Alguma novidade? Por aqui também não. Vamos nos telefonar novamente no mês que vem, está bem? Sem falta. E voltavam para casa. Somos todos iguais, quando a novidade se faz necessária.

Rimos e somos nostálgicos ao lembrar do tempo que não vivemos, o que não é mesma coisa, mas está na memória.  Hoje andamos com um Smartfone na mão, falamos e conseguimos ver a pessoa do outro lado e o outro lado, já não é distante, mas sem novidades, além da velha Covid 19.

Aprendi muitas coisas em Paris. Uma noite conheci uma mulher pertinho do Moulin Rouge, que se vestia de Jean Genet  – ou algo assim como Paris.

Onde estávamos? Estávamos com Amos Oz, que ao lado do seu gato, disse: “É bom escrever. Não é bom esquecer o que escrevemos”.

Kapetadas

1 – O Objetivo da existência é ser tranquilo. Disserte sobre.

2 – Se você não tem nenhuma fonte de inspiração, use a fronte.

3 – Som na caixa: “Minha bússola e minha desorientação”, Caetano Veloso

MaisPB

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