Crônicas

Cidades mágicas (por Hildeberto Barbosa Filho)

18 de outubro de 2020 às 10h00

Se as cidade, em si mesmas, não são mágicas, pois dotadas da tangibilidade irredutível do real, mágicas podem ser, não obstante, para esse ou aquele habitante que delas guarda e preserva algum resíduo de memória, alguma fatia de afeto.

As cidades, pequenas, médias e grandes; próximas, distantes, conhecidas ou desconhecidas; reais, imaginárias, vivas, mortas, fantasmáticas, visíveis e invisíveis, todas são mais que solos paisagísticos, geográficos e urbanos. As cidades são, sobretudo, símbolos e história; artefatos tecidos pelos inefáveis fios do tempo e alvenaria argamassada pelo cimento desarmado da poesia, que se entranha no corpo das casas, nas veias das ruas, nos pulmões das praças e no latejar dos corações dos que as habitam ou por elas são habitados, estando longe ou dentro delas.

Manuel Bandeira, por exemplo, traz, gravada na argila de seus versos, a imagem lírica de Recife ao mesmo tempo em que preliba, no sonho estético, os doces prazeres de uma Pasárgada em cuja geografia partilha da amizade do rei. Carlos Drummond de Andrade nos evoca as noites brumosas de Itabira, com suas calçadas de ferro, depois transmutada em simples fotografia na parede. João Cabral de Melo Neto fala de uma Sevilha andando e contrapõe a paisagem rochosa dos agrestes pernambucanos ao impacto sólido e desértico da mesetta espanhola. Jorge Amado, no seu intenso fabulário, reconfigura ladeiras, becos e vielas de Salvador e sua Bahia de Todos os Santos. São Luís ocupa os silêncios metafóricos e as águas imagéticas dos poemas de José Chagas e de Nauro Machado, assim como a capital paraibana é percorrida, palmo a palmo, pela melodia poética e pelo ritmo histórico do grande poema de Jomar Morais Souto, “Itinerário lírico da cidade de João Pessoa”. José Nêumanne Pinto, por sua vez, trafega entre Barcelona e Borborema, unindo, na topografia de múltiplas estrofes, as semelhanças e as diferenças entre burgos tão distantes, porém, compactados no flagrante alquímico da poesia.

E como pensar Dostoiévski, sem Petersburgo (foto)? Fernando Pessoa, sem Lisboa? James Joyce, sem Dublin? Franz Kafka, sem Praga? Victor Hugo, sem Paris? Isto só para me socorrer dos escritores e poetas, esses arquitetos de palavras, esses que modulam os subúrbios da beleza, com suas construções verbais, ampliando, assim, nossa visão de mundo e nos descortinando o interior de suas cidades, a sinalizar, de repente, para a própria magia das nossas, pequeninas cidades donde viemos: Aroeiras, Umbuzeiro, Queimadas, com toda a solidão de suas pedras desamparadas, orando como que em súplica para os céus.

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