Crônicas

A cara esfacelada na calçada (por Givaldo Medeiros)

30 de setembro de 2020 às 12h10

A estátua de Ariano Suassuna (foto) , na rua da Aurora, com o rio Capibaribe ao fundo, e o teatro Santa Izabel do outro lado¸ no centro do Recife, é a imagem de um Nordeste quente e pujante. Cultura e brasilidade. Brasilidade e resistência a qualquer invasão cultural destruidora. Uma redoma de vibração e bom humor. Orgulho. Um nordeste diferente daquele que pintam: triste, faminto e de mãos estendidas aos mais desenvolvidos. Dominação.

Ariano Vilar Suassuna, dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor. Paraibano de nascimento, pernambucano por adoção, defensor intransigente da arte, dos costumes e de toda a herança cultural dessa região. Enquanto vivo, não se quebrou a nenhuma ameaça ou intromissão, do erudito ao dito e não dito de outra civilização. Filho dessa Capital, autodenominado taperoaense, por pura tenência à história de vivências negativas, então entronizadas na criança, em meio à saga familiar.

Tenho uma teoria de que todos nós, sem exceção, somos idiotas. Senão por todo o tempo, por algum período, um momento, um raio de hora. Quantas vezes, repensando atitudes ou pensamentos, reconhecemos: – Como fui idiota! Por inocência, por excesso de autoconfiança, por querer saber além do que os limites de nós mesmos nos impõem. Por ignorância também. Há, no entanto, idiotas agressivos,

Ao olhar Ariano, de cara no chão, mãos para traz, como se o tivessem algemado, os pés quebrados, sobre a calçada, vi-me alquebrantado, céptico quanto à alavancagem de um Nordeste, cuja imagem fosse posta às alturas, como um Cristo Redentor carioca. Cismei com um Ariano mais duro, como fora Drummond em Confidência do itabirano. “por isso sou triste (dizia referindo-se a ter nascido em Itabira), orgulhoso: de ferro. Onde também confessa sua vontade de amar e revela que o ato de sofrer, que tanto o divertia, era herança itabirana. Pois então, se Ele, poeta de ferro, sofria, que dirá nós, pobres homens enfraquecidos.

Penso que no meio dessa gente nordestina, de fala arrastada, gestos lentos e coração cheio de generosidade, também há seus vândalos, seus seres estúpidos, seus bobos insolentes, seus rebeldes sem pautas relevantes. Pois que, somente essa condição humana, de têmpera indecifrável e mesquinha, pode servir de alegação para esses atos bárbaros. Lembremos, de passagem, que a estátua, em bronze, do poeta de ferro, também foi danificada por mais de uma vez, nos arredores da praia de Copacabana. Então, não há como nos livrarmos dos demônios de carne e osso, que soltam fumaça ao andar entre nós. .

Eu tenho lado. Eu sou do lado do quinteto armorial. Do mesmo lado de Capiba, amigo íntimo, e Antônio Nóbrega. Eu estou por traz da cortina das aulas espetáculos, e na mesma roda dos repentistas e emboladores. Eu sou Fernanda Montenegro, encarnada em Nossa Senhora, a perdoar travessuras e fuxicos de João Grilo. Trago ferro na alma e “ esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação”. Mas, nem por isso, vou aceitar Ariano com a cara esfacelada na calçada. Nem sei se enxerguei Ariano, vi foi minha brasilidade arrastada pelo asfalto; o Nordeste pedinte, clamando por alguma ternura, por acaso escondida nos recônditos desse ser nefando.

MaisPB

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