Crônicas

A minha herança

9 de agosto de 2020 às 12h39

Aquele ambiente era mágico. Dia de estreia. Ano de 1998. Eu tinha de 13 para 14 anos. Estúdios da Rádio Jornal AM 950 de Sousa, alto sertão da Paraíba.

A insegurança própria da idade brigando com a paixão crescente pela comunicação, maior do que os medos, superior às fragilidades naturais e quase invencível timidez.

O dia havia começado bem mais cedo para mim até pegar o táxi e me deslocar sozinho de Marizópolis com frio na barriga e tudo até chegar às solitárias ruas de um domingo em Sousa.

Escadarias da emissora, degrau a degrau, prenunciavam o que viria no futuro, cada fase, cada etapa a ser conquistada com chuvas de suor, nuvens de lágrimas e trovões de coragem.

Jornais Correio e o Norte, do sábado, na redação. Naquela época, a fonte quase exclusiva para produção. Ao lado, a máquina datilográfica portátil, presente de minha tia Pompéia, que carregava como um amuleto sagrado.

Meio sem jeito para encarar os novos colegas de batente e mergulhado em torrentes de ansiedade, chegou a hora. Meio dia em ponto estava para entrar no ar o Antena Ligada, meu primeiro programa de rádio 22 anos atrás.

Ao atravessar a porta e penetrar aquela sala, o espaço que seria minha nova companheira para as décadas seguintes, ares quase místicos tomaram conta de mim.

O cheiro do estúdio, a temperatura artificial de ar-condicionado. Tudo compunha um quadro absolutamente inexplicável.

Até que a luz vermelha de no ar acendeu para eu anunciar a hora certa e ela me anunciar para o mundo radiofônico.

Fixei os olhos no microfone já visivelmente surrado pelo tempo e com sua capa gasta. Sem forro, dava pra ver a cápsula interna.

Paralisei até que o sonoplasta, separado de mim num aquário de vidro, perguntou como quem já tinha a resposta. “Você sabe que esse microfone ainda é o mesmo do tempo que seu pai (falecido) trabalhou aqui (14 anos antes)?”

Ele falava de José Maria Madrid, que mais de uma década antes, havia inaugurado a emissora, ao lado de outros grandes profissionais do rádio nordestino. O pai com quem a separação conjugal não me permitiu conviver e que morreu antes de um reencontro para compensar a ausência.

Mexi a cabeça e entendi tudo o que ainda não estava claro. Não era só uma estreia. Era um encontro entre mim e aquele que – mesmo depois de um longo sumiço em vida e da morte seguida – ainda estava comigo.

Era o destino me beijando sem deixar mais nenhuma dúvida de minha sina.

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