Bastidores

Dias brancos (crônica de domingo)

19 de abril de 2020 às 16h14

Do nada, um movimento leva o olhar a um flerte com o reflexo do espelho transparente do guarda-roupa. No fundo da retina, a nova imagem aparece quase em câmera lenta.

As feições ganharam inéditos contornos. A marca de expressão e dois grandes vincos. De onde eles vêm? Das preocupações ou da natureza em estado de permanente tensão?

Uma mexida de lado e outra novidade se descortina mansa como a tarde de quarentena que demora a gastar as horas.

Nos fios laterais, uma nova povoação se mistura entre camadas de loiro e ruivo escuro. Rabiscos alvos desenham outros caminhos e labirintos de experiências.

Agora, aquela mente que tanto se apressou para crescer rápido depara-se com essa face inesperada e precocemente amadurecida.

Os cabelos brancos avisam que outro tempo já desabrochou e o dono nem se deu conta direito dessa metamorfose.

Os olhos ficaram fixos na transparência e naqueles fios novos povoando as frontes desse homem a um palmo do nariz, bem aqui invisivelmente despercebido.

Procurou o rapazinho na íris. Só viu o pai, o esposo, o cidadão, o trabalhador e o futuro incerto.

Aquelas pinceladas finas e claras fitaram-lhe. Encararam-lhe com doses de realidade, crua, nua.

Mexidas para o lado. Conferindo, não dá para fugir. Chegou para fazer morada. Na cabeça e no pensamento que voa “num pedaço de qualquer lugar”.

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