Da janela vi um super herói despido... (por Nayanne Nóbrega) – Heron Cid
Bastidores

Da janela vi um super herói despido… (por Nayanne Nóbrega)

29 de março de 2020 às 11h47
Quarentena: vestido de homem-aranha, vendedor caminha por orla do Bessa vazia; sem rumo e sem esperança

A câmera do celular não ajudou, a qualidade é ruim… é Iphone, mas é um modelo antigo….Artigo de luxo de poucos…

Da janela do meu quarto também me vi com privilégios de poucos…Ter uma casa, dormir confortavelmente, ter a comida na mesa….

Da janela do meu quarto, vi um trabalhador vestido de homem-aranha despir-se com a falta de esperança…

A roupa a meio corpo, a cabeça baixa e o sol escaldante que faz hoje nesta terra onde o sol nasce primeiro… Buscava ele a sombra de um coqueiro para se refrescar…

Da janela do meu quarto, o medo do Coronavírus me resguardava…e por ironia, também privilégio de poucos…

Já faz um tempo que digo e repito, “são tempos difíceis, para os sonhadores”, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain se cruza mais uma vez com o meu nessa afirmativa tão assertiva…

Da janela do meu quarto, vi um trabalhador vagar sem esperança em busca do sustento de sua casa…

“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante”,

Peço licença poética a Álvaro de Campos para citá-lo aqui…

E eu, tantas vezes, egoísta me vejo com preocupações tão ingênuas, tão indubitável, tão iniludível, tão egoísta…

E eu, do meu home-office escrevo, mas queria mesmo era encontrar novamente aquele super herói, abraçá-lo e poder dizer que tudo isso vai passar…

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