O ovo e a galinha (por Diogo Mainardi) – Heron Cid
Bastidores

O ovo e a galinha (por Diogo Mainardi)

2 de fevereiro de 2020 às 09h00

Eu sou uma galinha. Regina Duarte foi entrevistada no Manhattan Connection. E eu apaguei da memória sua passagem pelo programa. É uma característica comum a todas as galinhas: nenhum acontecimento do passado permanece por mais de dez minutos em nossa memória.

A sorte é que uma parte do meu hipocampo está armazenada em Palo Alto. Acabei de rever no YouTube o programa com Regina Duarte e posso garantir que, apesar de meu esquecimento, a entrevista realmente ocorreu. É de 29 de maio de 2016, algumas semanas antes do impeachment de Dilma Rousseff. Sim, eu estava lá durante a entrevista. Ou melhor: eu estava aqui, no meu galinheiro veneziano, cacarejando. Nenhum de meus cacarejos foi minimamente memorável. Sou uma galinha inútil, que não bota ovo. Mas Regina Duarte, conversando com meus colegas, antecipou os principais pontos de sua plataforma como secretária da Cultura, embora ela ainda não soubesse disso, quatro anos atrás.

Ela disse:

“A hora é de agarrar essa oportunidade de cidadania, que se oferece neste momento, para discutir questões importantes sobre a Lei Rouanet, sobre a importância dela, o que funciona, o que não funciona, onde é que ela fica perversa… Só os grandes empresários têm o direito de brincar com a lei. E os pequenos estão fora da jogada.”

Bem, ela agarrou essa oportunidade. Na época, o Ministério da Cultura ainda não havia reprovado as contas de um de seus projetos teatrais, pedindo-lhe para restituir 319 mil reais captados com a Lei Rouanet. Pode-se afirmar, de fato, que Regina Duarte brincou com a lei e sabe o que ela tem de mais perverso.

Estapeada pela esquerda desde 2002, quando aceitou participar da campanha de José Serra contra Lula, ela disse também:

“Eu sou pela liberdade de expressão, respeito a expressão do diferente; tapa dói, venha da esquerda, venha da direita, tapa não é legal, tapa a gente sabe para onde leva.”

Regina Duarte, em seu cargo público, vai levar tapas dos dois lados. Espera-se que, com ela, o pessoal da cultura seja capaz de botar um ou dois ovos.

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