Vamos falar de Bruna, ok? (por Nelson Motta) – Heron Cid
Bastidores

Vamos falar de Bruna, ok? (por Nelson Motta)

27 de julho de 2019 às 12h00

Bolsonaro diz que não vai permitir que dinheiro público financie filmes que ele não viu, mas lhe disseram ser pornográficos, como “Bruna surfistinha”, e “por respeito às famílias” tenta instituir a censura dos financiamentos à produção cinematográfica que geram empregos e milhões em impostos. E nem são de “dinheiro público”, mas do Condecine, um fundo formado pela renda de diversos filmes financiados por ele.

Por que as famílias se ofenderiam? Ninguém é obrigado a assistir ao filme. E quantos membros das famílias viram escondidinho? Quantos se excitaram? A pornografia está nos olhos de quem vê. E o que o Estado tem a ver com isso?

Faltou dizer “essa Bruna Surfistinha é um péssimo exemplo para garotas, tá ok?” Positivo. Mas o que o livro e o filme mostram são as terríveis consequências de seus erros, ela acaba se vendendo por trocados para sustentar seu vício em cocaína. Não seja otária de imitar Bruna, é a maior roubada, é mais a visão do filme do que julgar Bruna. Pornô zero.

Embora seja “neutro”, centrado na trajetória pessoal de uma personagem muito interessante, o filme é “contra” a prostituição e as drogas, não há glamourização, o preço é alto; o final é triste.

O mais interessante de Bruna Surfistinha é como uma garota baixinha e sem maiores atrativos físicos conquistou tantos fãs e clientes pelas palavras, contando suas transas, excitando a galera com suas postagens no Facebook, como uma Sherazade digital. Com a cabeça, conseguiu mais do que com o corpo. Virou um mito, ao alcance de quem pagasse para ver.

Os cachês da Bruna real eram modestos, mas a história seria outra se ela tivesse a beleza e o sex appeal de Deborah Secco e a sua arte de representar, atributos que fazem a diferença num mercado altamente competitivo, em que muitas estão por necessidade, mas outras por vontade, exercendo seu direito de fazer o que quiserem de seu corpo. Engana-se quem pensa que elas vendem (só) sexo: dão alegria, carinho, simpatia, aceitação, consolo e, às vezes, até amor.

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