Eu sou nota de rodapé (por Mario Sabino) – Heron Cid
Bastidores

Eu sou nota de rodapé (por Mario Sabino)

27 de julho de 2019 às 10h00
Mensagens vazadas entre procurador e ex-juiz trazem a público a extrapolação dos limites do papel institucional e da autoridade judicial

Como não dá para sair do assunto, peço licença para repetir o que escrevi em O Antagonista:

Os veículos que colaboraram na divulgação das mensagens roubadas de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outras autoridades devem repetir, para justificar-se, que o conteúdo era de “interesse público”.

Não era. Ao contrário do que fazem crer os hermeneutas da sem-vergonhice, não há uma única mensagem que aponte fraudes na investigação e nas provas obtidas pela Lava Jato contra Lula ou qualquer outro réu na operação. No afã de vilipendiar os mocinhos e vitimizar o bandido, os colaboracionistas nem tentaram contextualizar integralmente os diálogos publicados, porque a contextualização enfraqueceria a tese do “interesse público” no conteúdo.

Não há que falar em “interesse público” quando o único interesse é tirar da cadeia o chefe do maior esquema de corrupção do país, pintando-o como vítima de um golpe político-judicial. Pelo contrário, o interesse é privado — dele, Lula, em primeiro lugar. E o interesse privado quase prevaleceu quando se quis que o STF soltasse o condenado, a pretexto de que o então juiz Moro agira ilegalmente. É de se imaginar o estrago que seria feito ao verdadeiro interesse público se a soltura tivesse se dado nessas condições.

Os veículos que colaboraram na divulgação das mensagens roubadas agora são vistos por muitos dos seus leitores como cúmplices de estelionatários a serviço de ideólogos cavilosos e aliados menos interessados em redimir a humanidade do que em salvar a própria pele. Causaram estrago a si próprios e ao jornalismo em geral.

Seria bom que gente suja nunca mais pautasse os jornais e revistas do país. É apenas uma sugestão, porque a liberdade de imprensa também pressupõe o direito à autodestruição.

Acrescento que a conferência “A imprensa e o dever da verdade”, de Rui Barbosa, não pode servir de valhacouto de hackeadores e manipuladores. É o que tentam fazer agora. O velho Rui não fez apologia de fato criminoso, ao dizer que “queiram ou não queiram, os que se consagraram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro… Para a Nação não há segredos; na sua administração não se toleram escaninhos; no procedimento dos seus servidores não cabe mistério; e toda encoberta, sonegação ou reserva, em matéria de seus interesses importa, nos homens públicos, traição ou deslealdade aos mais altos deveres do funcionário para com o cargo, do cidadão para com o país”. Com o perdão do clichê jornalístico, ele jamais poderia imaginar em 1920 a distorção que está em curso em 2019.

Ah, sim, fui informado de que o meu nome figura na lista das pessoas que tiveram o seu telefone invadido ou a ser invadido pelos hackers presos pela PF. Tarefa encomendada, certamente. Mas não sou lead, sou nota de rodapé.

Crusoé

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