TSE age com correção e diz “não” a um pleito do PT, que queria impor às emissoras a fórmula da cobertura. Por Reinaldo Azevedo – Heron Cid
Bastidores

TSE age com correção e diz “não” a um pleito do PT, que queria impor às emissoras a fórmula da cobertura. Por Reinaldo Azevedo

29 de agosto de 2018 às 10h41

O PT foi derrotado por seis a um num estranho pleito encaminhado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O partido pedia que a Justiça Eleitoral obrigasse as emissoras de TV a fazer a cobertura diária da campanha do ainda presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva. O pleito parece piada, mas é verdadeiro.

Vamos lá: a melhor forma que têm as emissoras de fazer o seu trabalho é registrar o dia do candidato. Algumas optam por um relato das atividades do presidenciável e depois gravam uma fala exclusiva. Por óbvio, a cobertura tem como protagonista aquele que é cabeça de chapa. Afinal de contas, o que quer o PT?

Segundo a petição apresentada pela coligação “Povo Feliz”, que reúne PT, PCdoB e PROS, algumas emissoras “omitem de sua programação comum a existência da campanha de Lula”. É mesmo?

Ora, se as ditas-cujas resolveram dispensar rigorosamente o mesmo tratamento ao petismo, relatando o cotidiano do candidato, acredito que a legenda acusaria discriminação: “O candidato do PT acordou hoje, na Superintendência da Polícia Federal, tomou café da manhã junto a outros presos. Às 10h, foi encaminhado ao banho de sol. Às 14h, recebeu seus advogados. Às 22h, foram apagadas as luzes da cela”.

É isso?

Não estou sendo nem jocoso nem cruel. Todos sabem o que penso sobre a sentença de Sérgio Moro e sobre a prisão — que afronta a Constituição. Mas e daí? Preso ele está. Condenado em segunda instância. É inelegível, segundo a Lei da Ficha Limpa, que é uma aberração que contou com a chancela do PT e de Lula. É claro que nem por isso deixa de ser uma deformidade. Mas não vai ser declarada sem efeito apenas para beneficiar o petista, certo?

Humberto Jacques de Medeiros, vice-procurador eleitoral, defendeu a liberdade que têm os veículos de comunicação de organizar a sua cobertura e afirmou que, em ultima instância, o juiz das escolhas feitas por ele é “Sua Majestade o público”. Gosto da argumentação, mas ela poderia abrir o flanco para que se acusasse a emissora X ou Y de privilegiar o candidato A ou B em detrimento de outro ou outros.

A questão crucial, parece-me, é outra: as emissoras estão tocando a música conforme o próprio PT a escreveu, não é mesmo? Quem foi que fez um presidiário ser candidato? Não foi o partido? Quem é que decidiu esticar até o limite possível a candidatura impossível de Lula? O partido! Quem decidiu usar a eleição como instrumento e palco do proselitismo em favor do ex-presidente? A resposta e a mesma: o PT. Então não se cuida de discriminação nenhuma. Assim que Fernando Haddad for declarado o candidato da agremiação, é certo que passará a ser personagem do noticiário das emissoras — cada uma delas de acordo com os critérios que adotou.

Se o PT escolheu um candidato que sabidamente não pode viajar país afora; se escolheu um candidato que está impedido de conceder entrevistas; se escolheu um candidato que não pode participar de encontros e sabatinas, tal escolha está feita. As emissoras não têm nada com isso. Haddad só não tem garantido seu espaço diário nas TVs porque o partido diz que ele é candidato a vice. E recebe, pois, tratamento compatível. Ou vocês viram o noticiário se fixar no cotidiano dos vices?

Só o ministro Napoleão Nunes Maia divergiu do entendimento da maioria.

Lula na TV
Aqui e ali se comenta que o TSE estaria propenso a proibir a aparição de Lula no horário eleitoral do partido, mesmo que Roberto Barroso, o relator das múltiplas impugnações de sua candidatura, ainda não tenha levado a questão em votação.

Se isso acontecer, é claro que será uma violência contra a ordem legal. Até que o TSE não declare a inelegibilidade de Lula, candidato ele é. Não pode fazer campanha e estrelar novas peças publicitárias porque impedido pela rotina de um presidiário.

As tentações autoritárias estão na praça, não é? O PT quer impor ao jornalismo uma pauta avessa a fundamentos do… jornalismo, e membros do TSE pensam em impor restrições ao partido que não encontram amparo na lei. Estamos feitos!