Janaína, cotada para vice de Bolsonaro, diz que seu papel é “abrandá-lo”. Por Reinaldo Azevedo – Heron Cid
Bastidores

Janaína, cotada para vice de Bolsonaro, diz que seu papel é “abrandá-lo”. Por Reinaldo Azevedo

1 de agosto de 2018 às 09h51
Janaína Paschoal durante convenção do PSL, que sagrou Jair Bolsonaro candidato à Presidiência: a abrandadora…

“Penso que meu papel seria abrandá-lo. A caneta é do presidente. Mas, ao menos na minha área, parece que vai ouvir. Já reviu a ideia de aumentar o número de ministros. Bom sinal.”

A fala é da advogada Janaina Paschoal ao “Painel”, da Folha.

Refere-se ao recuo do candidato do PSL, que teria desistido da ideia, digamos assim, “bolivariana” — e ele já foi um admirador de Hugo Chávez — de aumentar de 11 para 21 o número de ministros do Supremo.

Também teria mudado a sua opinião sobre maioridade penal aos 16 anos — a advogada é (ou era?) favorável aos 18, com hoje. O candidato teria topado… 17!

Uma ala do bolsonarismo quer, sim, Janaína como vice. Acha que isso ameniza a imagem um tanto, bem…, rústica do demiurgo. Ademais, é uma mulher, não é? Para o autor da frase imortal, segundo a qual não estupraria a deputada Maria do Rosário “porque ela não merece”, além de “ser muito feia”, seria um potencial ganho. O eleitorado feminino, composto de mulheres que, segundo a clivagem bolsonarista, “merecem” e “não merecem” ser estupradas, é o que mais resiste a seu charme intelectual.

Considero sinceramente uma pena ver Janaína nesse território, achando que seu “papel” é “abrandar” Bolsonaro, aquele que nega a essência da escravidão — nada menos do que o esteio do modelo mercantil — e que tem o desplante de dizer que participou da operação que resultou na morte de Lamarca. Ele tinha, à época, 16 anos e não pertencia ao Exército. Participou como? Segundo diz, cortava palmito no Vale do Ribeira e conversava com os militares. Entendi. Seu papel no combate à Lamarca era bater papo.

Bem, as pessoas são livres para fazer o que bem entendem de sua biografia. Se Janaína acha que a parte que lhe coube no latifúndio do destino humano é abrandar Bosonaro, quem sou eu para contestar?

O general Hamílton Mourão, do PRTB, também teria voltado às cogitações para vice. Sei. É o homem que disse em entrevista que considera a militância bolsonarista “meio boçal”.

Não estou certo se o general reformado também estaria empenhado em abrandar o capitão reformado.

Não custa lembrar: no programa “Roda Viva”, Bolsonaro repetiu a frase dita sobre Maria do Rosário sem revê-la, negá-la ou lhe corrigir o conteúdo. E ainda buscou abrigo na imunidade parlamentar.

Ou por outra: na prática, ele disse a frase pela terceira vez: em 2003, em 2014 (origem da ação contra ele no STF por apologia do estupro e injúria) e nesta segunda, 30 de julho de 2018.

Luiz Fux, o homem que, na condição de presidente do TSE, fica por aí a antecipar juízos de inelegibilidade sem que tenha sido provocado para isso, como exige a lei, é o relator, no STF, do processo contra Bolsonaro. Está sentado sobre o dito-cujo.

Apostando que o relator vai garantir a sua impunidade, Bolsonaro, então, reincide, reitera e tripudia.

Sem abrandamento possível nessa questão.