O reacionarismo “boçalnarista” agora diz ter encontrado Friedman. Por Reinaldo Azevedo – Heron Cid
Bastidores

O reacionarismo “boçalnarista” agora diz ter encontrado Friedman. Por Reinaldo Azevedo

26 de fevereiro de 2018 às 09h34
Karl Marx, em caricatura humorada

No domingo, o banqueiro Paulo Guedes, apresentado como guru econômico de Jair Bolsonaro, conquistou a manchete da Folha executando Mozart para os ouvidos mais exigentes: privatizar tudo é a saída, disse ele. Bem, nem sei se é “a” saída. Sei que é necessário. E citou, com correção, a necessidade de passar nos cobres as vacas sagradas do estatismo. Na sua lista, e também não minha, estão a Patrobras, o Banco do Brasil, os Correios, a Caixa… Tudo é tudo. Aliás, ainda que o Brasil não fabricasse ano a não o rombo fiscal que fabrica, no meu governo, não restaria estatal nem pra fazer remédio. Pra quê? Gerar ineficiências e servir de campo de manobra política. Sim, Guedes está certo. Mas é ele o candidato?

Lembro, antes que avance: em viagem ao Japão, o pré-candidato anunciou a sua receita para combater a violência contra as mulheres. Ele quer dar a cada uma delas uma arma —  o combate à violência doméstica, segundo esse gênio da raça, pode se dar com o casal trocando tiros. Bem, resta saber onde colocar as crianças. Por que essa observação neste ponto do texto? Vai ficar claro já, já.

Há algum tempo, ironizei Guedes e afirmei que ele vivia em relação a Bolsonaro o que se chama em psicologia de “Efeito Pigmaleão” ou “Complexo de Pigmaleão”. Ocorre quando o indivíduo enxerga na realidade apenas o que lhe é conveniente e atende a seus gostos. É uma referência à mitologia grega. Pigmaleão, também escultor, era rei de Chipre e, não vendo à sua volta nenhuma mulher que atendesse às suas exigências, esculpiu uma estátua que considerou perfeita. E por ela se apaixonou. Afrodite ficou com pena do rapaz e transformou a dita-cuja numa mulher, com quem o rei casou.

Cheguei a achar que Bolsonaro era a estátua de Guedes. Depois da entrevista do “guru”, refino um pouco a minha análise. O banqueiro resolveu ser ele próprio o presidente do Brasil, mas não tem voto para isso. Bolsonaro, hoje, se mostra competitivo. Se o buliçoso deputado se eleger, fica implícito que será Guedes a governar. Este tem ideias, mas não tem povo; Bolsonaro tem povo, mas não tem nem ideia de como funciona a economia. O político precisa do banqueiro para ganhar credibilidade junto aos mercados; o banqueiro precisa do político para tentar implementar suas teses.

Vejam que curioso. Nunca ninguém ouviu o “privatiza geral” da boca de Bolsonaro. Ao contrário! Ele já fez profissão de fé estatista. Recentemente, deu pra atacar a China, que estaria investindo demais no Brasil, inclusive na compra de terras. A sua “sinofobia”, esse misto de medo e ódio à China, vem desacompanhada de dados. O homem repetiu a conversa mole também no Japão.

Na entrevista, Guedes sugere que a “ordem” que Bolsonaro garantiria seria, vamos dizer, parceira ideal do progresso encarnado por ele — ou, como ele quer, pelas ideias liberais. Insisto na pergunta: por que Bolsonaro, ele mesmo, não toca nesse assunto? Por que o candidato prefere investir na tese, que inflama a direita xucra, de que a China comunista está comprando o Brasil?

No fim das contas, com a devida vênia, o banqueiro está fazendo um investimento, ancorado numa aposta: “Para o povão, fala ele; para os formadores de opinião, eu.” Ou ainda: “O povo é conservador ou até reacionário nos costumes; Bolsonaro tem de conquistá-lo; ele é o meu cavalo de Troia; se o eleitor o colocar no palácio, saio da barriga do bicho para governar o Brasil”.

Na fala de Guedes ou de Bolsonaro — um com o “progresso” e o outro com a “ordem” —, inexistem Congresso, Constituição, aparato legal. Tudo é exercício da vontade. Será que isso dá certo? É claro que não!

Volto ao Japão. O pré-candidato do PSL exaltou as riquezas naturais do Brasil etc., e disse que o problema aqui está na classe política. Nota: ele estava acompanhado de seus três filhos: um vereador, um deputado estadual e um deputado federal. Todos políticos. E, bem, já que o homem é a ordem, de que Guedes é o progresso, resolveu adaptar Donald Trump aos trópicos. O Agente Laranja dos EUA teve uma ideia luminosa para coibir massacres nas escolas: armar os professores. Até os seus fanáticos ficaram perplexos. Imaginem a cena: um professor e um maluco trocando tiros em meio a estudantes — não ficou claro se o presidente americano pretende que o mestre vá armado de fuzil… Bolsonaro radicalizou: violência doméstica e outras formas de agressão às mulheres também se resolvem na base da bala.

Eis a ordem, de que Guedes é o progresso.

Dá um bom roteiro trash de realismo fantástico latino-americano: enquanto os desdentados trocam tiros nas ruas, Guedes leiloa a Petrobras, enfrentando a oposição — também armada, suponho — das esquerdas.

Na vanguarda da luta, Guilherme Boulos e sua vice da tribo guajajara, devidamente adotada por Caetano Veloso e Paula Lavigne.

Não é bacana? À direita, Milton Friedman se encontra com Bolsonaro. À esquerda, Karl Marx é relido pelo ecossocialismo indígena.

Vejam pelo lado positivo: a gente nem precisa pagar ingresso por esse circo.

RedeTV

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