
No intervalo de uma e outra notícia no jornal do meio dia, Nonato Guedes foi avisado: alguém importante, e de fora de Cajazeiras, queria falar com o noticiarista. Na antessala do estúdio da Rádio Alto Piranhas AM, nada mais nada menos que Aloísio Moura, diretor do Correio da Paraíba. Sem maiores detalhes, o empresário fez convite para almoço numa churrascaria da cidade.
O manda-chuva foi direto. Sabia de uma ação trabalhista movida pela delegada regional do Trabalho, Socorro Araruna, em favor do jovem locutor/redator contra o Correio. A empresa havia desligado o jornalista da sucursal de Cajazeiras sem indenizações. Entre uma garfada e outra, Moura propôs: o ex-funcionário retiraria o processo e seria contratado para trabalhar no jornal e na rádio do grupo, em João Pessoa. A resposta, entretanto, precisava ser imediata, ali, sem consultas a pai, mãe ou namorada.
O ano era 1974. Nonato Guedes tinha 20 anos e já era, bem antes disso, um profissional notável na conceituada radiofonia cajazeirense. Tinha começado na rádio Difusora, de Mozart Assis, onde iniciou aos incipientes nove anos de idade como office boy, e logo se embrenhou na redação e microfone. Depois migrou para Alto Piranhas, emissora da Diocese local.
Sem tempo para reflexões ou prazo para consultas, entre “pegar ou largar”, o rapaz suspirou e disse “sim”! Quando no outro dia avisou ao seu superior, o precoce jornalista foi naturalmente alertado sobre os grandes riscos de tudo dar errado, especialmente pela sua juventude. “É por isso que eu vou, porque estou na idade de arriscar”, contrapôs, decidido.
Desembarcado na “cidade grande”, Nonato Guedes foi morar numa pensão na Avenida Cardoso Vieira, a poucas quadras da Barão do Triunfo, o novo local de trabalho. No primeiro dia, recebeu uma pauta-desafio; entrevistar dom José Maria Pires, o então Arcebispo da Igreja Católica. Andando pela rua, sem ideia de como chegar ao religioso, encontrou o então deputado estadual Bosco Barreto, representante de Cajazeiras na Assembleia Legislativa.
O novo morador de João Pessoa contou sua odisséia e recebeu conterrânea solidariedade. Em instantes, levado por Barreto, Nonato estava na sala do bispo para a entrevista. A conversa de 40 minutos anotada a papel e lápis, sem gravador, virou reportagem e foi parar na chamada de capa do jornal. No outro dia, o telefone da redação toca. O chefe Júlio Santana atende. Era ‘Dom Pelé’ para agradecer e registrar que o repórter havia sido rigorosamente fiel a todas as falas publicadas.
Foi assim a estreia, na capital, de Nonato Guedes, pedra preciosa garimpada e exportada por Cajazeiras. De lá pra cá, o talento profissional, a dignidade pessoal e a postura editorial lapidaram uma carreira brilhante. Aquele menino prodígio que foi pedir emprego na rádio aos 10 anos acaba de comemorar 68 anos. E nós – seus admiradores, colegas e leitores – agradecemos pelo “sim” que ele deu, sem pestanejar, e Aloísio Moura ouviu, naquela tarde de sábado.
A decisão que mudaria sua vida, a da família Guedes de Aquino e – por que não dizer – do jornalismo político paraibano. Porque, desde junho daquele ano, a corajosa diáspora desse sertanejo premiou a imprensa da capital com inteligência, visão e talento diferenciados. Um estilo que há 48 anos ajudou a modelar e continua a inspirar a melhor crônica política paraibana. Por várias gerações, incluindo a minha.
