Os aromas e sabores que ficam na gente (A Crônica de Domingo) – Heron Cid
Crônicas

Os aromas e sabores que ficam na gente (A Crônica de Domingo)

25 de janeiro de 2026 às 15h20 Por Heron Cid

Pode passar o tempo que passar. Não importam quantos menus sofisticados sejam provados em mesas de restaurantes chiques. Nem a nobreza e requinte dos chefes de cozinha. Os melhores cheiros e sabores serão, sempre, os primeiros. Independente da singeleza da receita, da rusticidade das panelas e da simplicidade dos ingredientes.

Tiro por mim. O rubacão na proporção perfeita de arroz e feijão e misturado à nata e queijo coalho derretido para ajudar na liga. De companhia, pedacinhos de carne de sol torrada no trio de ouro: manteiga, cebola e coentro. Uma mistura para abrir a boca, fechar os olhos e lembrar daqueles domingos de dona Marizete na cozinha.

Quando a sorte era maior, o rubacão vinha luxuosamente servido com postas de tucunaré pescado no Açude São Gonçalo, assadas na farinha de milho para não pregar na frigideira, e a opção de uma peixada – da mesma espécie – cozida. De brinde, o celestial pirão com o gosto de beiço d’água.

E o arroz vermelho de leite? Acompanhado de quê ficava mais gostoso? De tudo e até de nada. Mas a degustação só é completa mesmo se o sujeito arrastar o cascão para a colher. Raspando, literalmente, o tacho. Sem desperdiçar perder nem uma filepa que seja do manjar.

O santo casamento de cuscuz com feijão, temperado na graxa da carne de porco assada. Ou aforafado na carne verde guisada na batatinha, a gosto de pimenta do reino, que dona Nuita – minha avó – jamais abria mão. A macarronada feita na sardinha de lata, a farofa de cuscuz que ia bem com tudo: ovo, almôndega, galinha, fígado, carne ou só na manteiga, em dupla com café.

Aliás, para o sertanejo, o cuscuz é o nosso maná. No deserto de poucas fontes e na escassez de possibilidades, é o alimento enviado do céu para saciar a fome de muitos ao custo de pouco. Na culinária nordestina, difícil encontrar algum elemento mais representativo. Não por simbologia, mas por sobrevivência mesmo.

Para fechar esse cardápio, valia o improviso da sobremesa . Uma rapadura ou batida para aumentar o refrescor da água gelada descendo goela abaixo. Ou o doce de goiaba de lata mergulhado no creme de leite. A espécie de gergelim, o doce de mamão com coco, a manga espada cortada, o mel de engenho com farinha branca.

Ouve-se ainda o chiado da panela de pressão. O tilintar dos pratos. O borbulhar do caldeirão. A mesa arrodeada de olhares e afetos. Sentindo de novo o cheiro de tudo e degustando pratos cheios de memórias. Pegando com as mãos, deixando o caldo escorrer pelo canto da boca e fartando a barriga com o que sempre alimentará o coração. Essa crônica não é sobre gastronomia.

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