A inelegibilidade já era um problema político. O risco iminente de condenação e prisão migra o quadro de Jair Bolsonaro para o drama pessoal. A sua narrativa de vítima de perseguição e herói da luta anti-sistema fica cada vez mais precária. E Bolsonaro mais parecido consigo mesmo e menos com o “mito” que criou.
Antes de ser réu pela Primeira Turma do Supremo, Bolsonaro é réu confesso da conspiração autoritária que liderou, aberta e orgulhosamente, desde que sentiu o fogo da derrota esquentar o forro de sua cadeira.
Na entrevista concedida logo após a aceitação da denúncia no STF, o ex-presidente ensaiou defesa, mas conseguiu mesmo foi confessar ter analisado “hipóteses” com assessores e chefes de Forças Armadas. Entre as tais “hipóteses”, passou pela mesa do presidente minuta de estado de sítio e até plano de prisão e assassinato do presidente eleito e de ministro da suprema corte.
Esqueceu ou finge não saber que, numa democracia, só há uma ‘hipótese’ depois do império das urnas se estabelecer: aceitá-lo, fazer a transição e empossar o eleito. Nada mais.
Bolsonaro não esconde o estudo e análise de um plano de ruptura institucional, fartamente comprovado na investigação da Polícia Federal e denunciada pela Procuradoria Geral da República. Apenas atenua dizendo – cinicamente, por sinal – que o projeto de golpe não foi levado a cabo.
Não por falta de interesse, mas porque não conseguiu apoio suficiente. Simples assim. Porque, do contrário, teria materializado o ambiente estimulado por ele nas calçadas dos quartéis com gritos de guerra e cartazes pedindo “Intervenção Militar”. E o que é uma “intervenção militar” num país democrático, a não ser “golpe” de estado contra vontade popular decretada na eleição?
Espertamente, Bolsonaro tenta reduzir todo o julgamento ao tresloucado 8 de janeiro, como se a violência estúpida daquele dia fosse ato pontual e isolado, e não o resultado desesperado de estímulos, incentivos e ações estudadas e perpetradas por meses a fio e cujas discussões e avais frequentavam o Palácio do Planalto.
A frustrada tentativa terrorista de explosão de um caminhão de combustível nas imediações do aeroporto de Brasília foi uma delas. Agora, a bomba que o ex-presidente deliberadamente ativou está no seu próprio colo. E de explosivo ele entende desde os tempos que detonava terrorismo contra o Exército, de onde foi expulso e saiu pelas portas do fundo. Da mesma forma que escolheu deixar a Presidência do Brasil.