O arco-íris da noite – Heron Cid
Crônicas

O arco-íris da noite

31 de maio de 2026 às 14h44 Por Heron Cid

*Barra de Mamanguape-PB (24/05/26)

Sorvia um gole de café, antes de partir para viagem. Na mesa, do nada, Daniel, meu menino de três anos, balbuciou uma expressão aparentemente desconexa na minha direção: “Um arco-íris de noite”!

Pedi para ele repetir e fui atendido. Surpreso, guardei a frase, procurando um sentido para o que, no primeiro instante, não via sentido algum. Além de uma bela imagem poética.

Na estrada de barro, por entre canaviais, a falinha inocente latejava na mente e brilhava no verde dos meus olhos. A alvorada iluminou o novo e especial dia. Ao olhar do meu lado na cama, ensolarou todo o sentido do mundo.

Visei a aniversariante: Marly, a mãe de Benjamim e Daniel, a minha grande companheira. Veio o estalo. O anjo em forma de gente pequena, ingênua e inocente, sussurrou um dia antes ao meu ouvido.

O arco-íris é uma das mais belas expressões da natureza. Se é incomum durante o dia, fenômeno raríssimo noturno. Só em noites de lua cheia, com céu limpo e perceptível no Brasil nas correntes das Cataratas do Iguaçu.

Marly foi e é isso em mim. Um acontecimento naturalmente colorido que vivo a contemplar com renovada admiração. Uma aliança de vida, semelhante à feita por Deus com sua criação, no dilúvio. Quando tudo estava perdido, a nova chance, o recomeço.

Nas minhas horas nubladas, ela se faz facho de luz no horizonte. Gotículas de afeto suspendem no ar e no contraste entre amor e imerecimento o reflexo de sua grandeza exibe um arco de compreensão e cores de multisentimentos.

Como na ciência, será sempre em vão buscar sua localização exata no céu de nossa existência. Mas meus olhos vêem e meu coração sente. Cada vez que ela reaparece, feito arco-íris, eu sei que ali, no final, brilha meu tesouro escondido. Mesmo que seja noite.

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