Lei do Gabarito: do abuso em João Pessoa ao estupro em Cabedelo – Heron Cid
Opinião

Lei do Gabarito: do abuso em João Pessoa ao estupro em Cabedelo

29 de maio de 2026 às 19h35 Por Heron Cid

Começou com infrações graves sendo minimizadas no metro quadrado mais valorizado de João Pessoa. O argumento condescendente, inclusive de autoridades responsáveis por proteger o interesse público, era de que alguns centímetros ou metros a mais ou a menos não interferem na legislação, ventilação e paisagismo da cidade.

Para salvar a pele de uns poucos infratores, o Sindicato da Construção Civil de João Pessoa perdeu a oportunidade de conceituar e defender o respeito à Lei do Gabarito como baliza e prática da maioria dos construtores sérios da cidade. (Acaba de repetir o erro ao evitar “juízo de valor” ao se pronunciar em nota insípida, inodora e incolor sobre a mais recente denúncia)

A entidade que teria autoridade para puxar a autorregulação, em defesa da credibilidade do setor, cedeu ao corporativismo pouco inteligente e passou usar seu prestígio político e mobilização econômica para evitar punições e legalizar o ilegal.

A operação derivou para a atabalhoada legislação de uso e ocupação do solo da cidade, produzida pela Câmara Municipal, com o enxerto esperto de um artigo jabuti que mereceu ação do Ministério Público, intensa rejeição na sociedade e reveses no Tribunal de Justiça da Paraíba. Até bater no Supremo Tribunal Federal.

Na força-tarefa jurídica-política, o TJ, depois de pressionado, foi lesado. O que se argumentou para a Corte rever a ilegalidade do artigo 64, da LUOS, foi solenemente contraditado pela mesma parte em instância superior. Um estelionato jurídico.

Ficaram os desgastes de imagem para um segmento reconhecidamente relevante e a pedagogia da impunidade a estimular o avanço, de centímetro e centímetro, acima da Lei do Gabarito. Não podia dar em coisa boa. E não deu.

Agora, o Ministério Público identificou e denunciou um caso mais acintoso: uma construtora levantou um prédio à beira-mar de Cabedelo, erguido nas barbas de todo mundo quase oito metros acima da altura permitida. O proporcional a dois andares.

Além da empresa, o MP acionou também o Município de Cabedelo, esfera com dever constitucional de garantir o cumprimento das normas e punir os contraventores. E não fazer vistas grossas ou se associar na defesa dos infratores, como, lamentavelmente, se deu na Capital.

O que se inaugurou com abuso em João Pessoa chegou ao nível da violência estúpida em Cabedelo. A Lei do Gabarito está sendo estuprada. Quem vai parar os abusadores?

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