Opinião

Enquanto você estiver vivo, vai ter louça (por Mariliz Pereira Jorge)

8 de janeiro de 2021 às 19h15 Por Heron Cid
Louça acumulada para lavar - Eduardo knapp/Folhapress

Não sei se aprendi grandes lições com tudo que vivemos durante o último ano. Embora o isolamento, a saudade das pessoas e do mundo como ele era tenham deixado alguns arranhões em minha insignificante existência, a única certeza que levarei comigo, quando tudo isso passar, é bem resumida pela minha pensadora contemporânea preferida, Ida Feldmann: “enquanto você estiver vivo, vai ter louça”.

Pendurado na minha cozinha, um quadro com esta frase, deixou de ser apenas uma piada sobre as tarefas domésticas que enfeitava a parede.

Ao longo dos meses de clausura, entendi que diante de todas as dúvidas e medos sobre o futuro, uma coisa é certa sobre o hoje e o amanhã: uma pia cheia de louça. Sobre o ontem também, porque muitas vezes só queremos encarar a sujeira no dia seguinte.

Não à toa os Gremlins se multiplicavam quando eram molhados. A inspiração do autor deve ter vindo quando lavava o 23º copo. Copos brotam em todos os lugares da casa, mesmo que você more sozinho.

Quanto mais você lava, mais o milagre da multiplicação acontece. Eles desparecem aos poucos da prateleira e surgem como mágica na sala de jantar, no braço do sofá, na mesinha de cabeceira, no chão da varanda. Já foi visto até dentro do box do banheiro.

O mesmo fenômeno se repete com as xícaras de café. Às dezenas, elas tomam conta de todos os recintos. Pensei que pudesse ser algo sobrenatural, mas é só uma coisa chamada ma-ri-do.

Por alguma razão, maridos não enxergam a louça espalhada pelos cômodos e muito menos na pia. A não ser quando não há mais talheres ou pratos limpos disponíveis. Ou quando uma mulher louca começa a gritar, no meio da sala, que se recusa a morar num pardieiro. A visão volta por um milagre, mas o efeito é efêmero.

Você acabou de passar horas dentro na cozinha, ouviu podcast, Arlindo Cruz em looping, resolveu todos os problemas da humanidade enquanto areava as panelas, meditou, fez um plano para conquistar o mundo. Deixou tudo brilhando. Experimente ir ao banheiro. Quando voltar, adivinhe o que tem na pia: louça. Louça é uma coisa traiçoeira.

E não importa que você tenha uma lava-louças. Pratos e travessas ainda não vão andando até lá. Alexa também não é dada a essas coisas. Alguém precisa fazer o trabalho sujo para que a máquina deixe tudo limpinho. Ou seja, não tem almoço grátis mesmo. Enquanto você estive vivo, vai ter louça.

*Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

Folha

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