Crônicas

O homem que criou aquelas capas (por Ruy Castro)

20 de dezembro de 2020 às 10h44
Capas criadas pelo designer Cesar Villela para discos da Odeon, da Philips e da Elenco nos anos 1950 e 1960 - Heloisa Seixas

O designer Cesar Villela, que morreu no dia 11 último, aos 90 anos, criou mais de mil capas de discos para várias gravadoras, usando toda espécie de cores. Mas passou à história pelas pouco mais de 10 em preto-e-branco que fez para o selo Elenco, entre 1962 e 1964, e que deram à bossa nova sua identidade visual. Você sabe: fotos em alto contraste, muito espaço em branco, letragem dinâmica e, com o modesto recurso de uma segunda cor, quatro bolinhas vermelhas ao redor da figura. No futuro, os teóricos associariam aquele estilo à secura da bossa nova, como se as capas antecipassem a música contida nos discos.

Mas não. Foi por falta de dinheiro mesmo. Aloysio de Oliveira, dono da Elenco, não podia bancar capas em cores como na Odeon, de que fora diretor entre 1956 e 1961 e onde descobrira Cesar no departamento de arte. Na rica Odeon, Cesar tinha carta branca para qualquer extravagância de produção, design, foto e até embalagem. A capa do LP “Chega de Saudade”, de João Gilberto, em 1959, o primeiro da bossa nova, era um show de cores –assim como as dos LPs de Moreira da Silva, Elza Soares, Trio Irakitan, Bola Sete, Lucio Alves, Tia Amélia e demais contratados.

Outro equívoco é o de que os desenhos e fotos da capa refletiam o clima do disco. Ao contrário, Cesar tinha de bolá-los no escuro porque, quase sempre, o disco ainda nem fora gravado. As gravadoras não possuíam gráficas próprias e as capas eram produzidas com antecedência.

Tudo isso só engrandece a arte de Cesar Villela. Era como se a bossa nova é que tivesse de se parecer com as capas que ele imaginara.

Outra revelação: Cesar nunca foi pago pelas capas da Elenco. Aloysio era generoso com o dinheiro alheio, mas sua gravadora era dura. Para fazer a feira, Cesar precisava trabalhar em propaganda. Adorava Aloysio, mas, em 1964, cansou, pegou o chapéu e passou os 25 anos seguintes nos EUA.

*Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

Folha

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