Crônicas

Um irmão serve pra você saber que não está delirando (por Gregorio Duvivier)

28 de outubro de 2020 às 11h00

Na minha infância, éramos quatro irmãos e eu tinha um sonho: ser filho único. Calculava que, se não fossem meus irmãos, teria tudo em triplo: carinho, atenção, brinquedos.

Achava que o Riquinho tinha aquele império porque não tinha irmãos —bastava que meus irmãos desaparecessem que brotaria um McDonald’s na garagem e Cavaleiros do Zodíaco no armário. Em algum momento, percebi que o Riquinho tinha uma existência miserável, implorando por amigos, enquanto eu tinha o maior tesouro: testemunhas.

O irmão é a única pessoa do mundo que sabe o que significa ser filho dos seus pais e conhece esse drama em toda a sua complexidade. Ninguém mais serviu de cobaia pra essa experiência. Levando em conta que toda infância traumatiza, o único alívio que podemos dar a um filho é um companheiro de traumas. Você não convida uma pessoa pra uma festa sem o habitual “mais um”.

Não há nada mais confortante que falar mal dos pais com quem conhece a causa. Só o irmão tem o alvará que permite espinafrar sua mãe, por ser também mãe dele.

O filho único está condenado a levar pro túmulo a experiência ímpar que só ele viveu. Deve ser como assistir a uma série que ninguém mais pode ver.

O Amyr Klink me intriga. Não porque atravessou o Atlântico remando, mas porque escolheu fazer isso sozinho. Imagina você encontrar uma baleia e não ter alguém pra falar: “Cacete. Isso. Realmente. Aconteceu?”. Quando você está sozinho, tudo é alucinação —um irmão serve pra garantir que você não está delirando.

Todo o mundo deveria ter direito a pelo menos um parceiro de jornada. A China fez a lei do filho único. Queria fazer a lei do filho duplo. Tudo bem não ter filhos. Mas pra quem teve um, acho que a lei deveria obrigar a ter outro —subsidiado, claro, pelo Estado, com anos de licença paga pra ambos os pais. Interessa a todos nós uma nação mais fraterna.

Dito isso, só tive uma filha, e estamos empurrando a próxima gravidez com a barriga. Nunca parece o momento de dizer: é agora. Quanto mais tempo passa, mais parece loucura voltar à estaca zero, à cólica, às fraldas e às noites sem sono. Taí: se tivesse lei que nos obrigasse, já tínhamos tido.

Teremos! Preciso que a minha filha tenha alguém pra compartilhar a delícia que deve ser falar mal de mim —esse prazer que o leitor da Folha já conhece há tanto tempo.

Folha

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