Crônicas

Na briga entre Bolsonaro e Globo, derrotado é o torcedor (por Juca Kfouri)

18 de outubro de 2020 às 11h00

Durante anos a Globo pagou pelo futebol mais do que o futebol valia. Eram tempos de fartura nos negócios e de Marcelo Campos Pinto no comando das operações, mais interessado em agradar os vendedores dos direitos do que seu empregador.

Com isso ganhou fama de adorável e competente negociador, com todos os benefícios daí provenientes.

Hoje trabalha para a Federação Estadual do Rio de Janeiro, embora em recente entrevista tenha previsto a morte de campeonatos como o carioca.

Para que a rara leitora e o raro leitor tenham uma ideia, a Globo pagava 60 milhões de dólares por três anos de contrato para ter os direitos da Libertadores, quantia que pagava à Fox, herdeira da PSN depois que o Fifagate varreu também a Conmebol.

A confederação sul-americana, alijados seus cartolas pelo escândalo, tratou de renovar sua imagem e suas negociações.

Em busca de face ética contratou uma empresa, que abriga em sua sede, e apresentou pacote em que pedia estratosféricos 1,35 bilhão de dólares, evidentemente fora de propósito, ainda mais sob as condições econômicas que assolam o planeta.

Negocia pra lá, negocia pra cá, a Globo aceitou pagar 60 milhões de dólares por ano num pacote pior do que tinha, mas com cláusula de renegociação caso o torneio fosse interrompido, como aconteceu devido à pandemia do novo coronavírus. E pediu 25% de desconto, proposta não aceita pela Conmebol.

A entidade foi à luta, ofereceu por 20 milhões os mesmos direitos pelos quais a Globo estava disposta a desembolsar 45 milhões, e acabou fechando por 12, com o SBT.

Difícil entender sem que haja gato na tuba, não?

Aí, chegamos aos jogos da seleção brasileira no Brasil nas Eliminatórias, adquiridos pela Globo, assim como os da Argentina, os primeiros junto à CBF e os segundos com a AFA.

Em regra, os demais jogos fora do país com as oito seleções restantes custavam 300 mil dólares.

Eis que a pedida foi de simplesmente 20 milhões de dólares, 2,5 milhões por partida.

A Globo, é óbvio, disse não e contrapropôs a metade, o que também foi recusado.

Então, diante da crise econômica, da queda de interesse pela seleção, o que a raquítica audiência da TV Brasil demonstrou cabalmente, viveu-se o suspense, até poucas horas antes de peruanos e brasileiros entrarem em campo no Estádio Nacional de Lima, sobre onde se poderia ver o jogo na TV aberta.

A solução está na Lei Pelé, e o dito canal público do governo federal pôs a partida no ar, com direito a vergonhoso culto à personalidade do autoritário de plantão.

Depois da malsucedida Medida Provisória do Flamengo, ou do Mandante, foi dada nova estocada bolsonarista em sua guerra particular com a Globo.

O torcedor está confuso e já prevenido que terá de pagar caro para ver futebol, os patrocinadores da CBF provavelmente não ficaram satisfeitos com a exposição pífia de suas marcas e a própria confederação, por mais interessada que esteja em bajular o poder, há de estar preocupada com a desvalorização de sua grife. ​

Como se sabe, esperteza demais engole os espertos.

Estamos vendo uma guerra em que todos perdem, embora de acordo com a política do governo de a tudo destruir, algo que a própria Globo demorou a perceber.

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